29/07/2005
Segundo pesquisa da Fiocruz, grávidas pardas e negras recebem menos anestesia no parto vaginal


Metade das mulheres brancas entrevistadas deu à luz em hospitais privados, em contraste com a grande maioria de negras e pardas que realizou o parto em instituições públicas.
As desigualdades raciais e sociais atingem mulheres não somente no cotidiano, mas também no acesso aos serviços de saúde. Do pré-natal ao parto, mulheres grávidas negras e pardas permanecem em situação desfavorável quando comparadas às brancas. As pesquisadoras Maria do Carmo Leal, Silvana Granado Nogueira da Gama e Cynthia Braga da Cunha, da Escola de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, analisaram a situação de grávidas negras, brancas e pardas com relação à qualidade
de vida, escolaridade e atendimento médico em estabelecimentos públicos e privados do Município do Rio de Janeiro.

Foram investigadas 9.633 puérperas (logo após o parto ou que deram à luz recentemente) entre 1999 e 2001. Destas, 5.002 eram brancas, 2.796 pardas e 1.835 negras. Os dados foram coletados a partir de prontuários médicos e em entrevistas com as mães no pós-parto. Segundo artigo publicado na edição de fevereiro de 2005 da Revista de Saúde Pública, "há maior concentração de puérperas adolescentes entre as negras (24,5%), seguidas pelas pardas (22,3%). Pardas e negras apresentam menor grau de escolaridade. Apenas 1,3% das negras e 2,8% das pardas completaram o ensino superior, em contraste com 13,1%
alcançado pelas brancas. O prejuízo da gravidez precoce não se restringe aos efeitos adversos sobre o recém-nascido, mas se estende a outras esferas da vida social da mãe, tais como a evasão escolar e pior qualificação profissional, levando à baixa colocação no mercado de trabalho".

As desigualdades na área profissional são agravadas pelo baixo nível de instrução. Entre as negras, é grande a proporção de mulheres que tiveram menos de quatro anos de estudo, resultado duas vezes maior que o obtido entre brancas e pardas. Segundo as pesquisadoras, 44,3% das mulheres entrevistadas possuem trabalho remunerado, enquanto entre negras e pardas este percentual cai para 32,0%.

Sofrer agressão física, fumar, tentar interromper a gravidez e peregrinar em busca de atenção médica foram situações mais freqüentes entre as negras, seguidas das pardas e das brancas com baixa escolaridade. A ausência do pai do bebê no domicílio das mães negras foi maior. Para as pesquisadoras, "estes dados evidenciam uma situação de desamparo emocional e econômico que se soma ao maior maltrato físico vivenciado durante a gestação". De acordo com o artigo, "mulheres negras e pardas são majoritariamente atendidas em estabelecimentos públicos, 58,9% e 46,9%, e nas maternidades conveniadas com o Sistema Único de Saúde (SUS), 29,6 e 32,0%. Por outro lado, quase metade das brancas, 43,7%, tiveram seus partos realizados em maternidades privadas. Estes resultados reforçam a desigualdade no acesso ao serviço de saúde entre mulheres de
diferentes etnias."

Entre mulheres negras de baixa escolaridade, observou-se que aproximadamente um quinto não realizou acompanhamento pré-natal
considerado adequado. Conforme o artigo, "a perambulação pelas maternidades na hora do parto é um exemplo da falta de acolhimento nas instituições de saúde. Um terço das pardas e negras não conseguiu atendimento no primeiro estabelecimento procurado e, no parto vaginal, recebeu menos anestesia. A ausência de planejamento sistêmico para assistência ao nascimento no município do Rio de Janeiro tem conseqüências danosas para mãe e filho". Para Maria do Carmo, Silvana e Cynthia, "não há como deixar de constatar que há dois níveis de discriminação na sociedade: a educacional e a racial. Ambas invadem a esfera da atenção oferecida pelos serviços de saúde à população de puérperas do Município do Rio de Janeiro. Os resultados obtidos com a pesquisa deveriam ser divulgados aos planejadores das políticas públicas, quanto à humanização no atendimento às gestantes, e incorporados aos treinamentos dos profissionais de saúde".

Agência Notisa (jornalismo científico - science journalism)

Meu comentário:
Quando eu li o título da matéria, achei que as mulherese pardas e negras recebiam menos anestesia, por serem mais resistentes à dor. Achei que fosse uma opção. A minha cabeça, treinada pra pensar pelo mais natural, acreditou que a matéria fosse trazer isso como algo de positivo e não esta triste realidade.


Patrícia Merlin



28/07/2005
Eu não tenho ido ao hospital e também não tenho sentido vontade ou inspiração para tal...
Isso é triste, por que sei que o que eu faço lá é bom pra todo mundo.
Enquanto eu não coloco minha cabeça no lugar para poder prosseguir, vou postar uns textos que recebi via email.


Patrícia Merlin



10/07/2005
A dor do parto.
Por Roselene


"A gente pode dissecar a questão da dor de infinitos modos. Sempre haverá uma maneira diferente de compreender... Meu desejo seria poder escrever um texto tão sensível que fizesse todas as mulheres compreenderem o sentido da dor e ansiarem por ela ao invés de armarem-se para combatê-la. Mas sei que isto não é possível, porque meu texto será único, e as mulheres, infinitas em suas vivências e imagens construídas ao longo de suas vidas, mais ou menos maleáveis. Mas vamos lá com as amassadinhas.

A dor (do parto) não é uma grandeza absoluta. Não mede xis unidades de qualquer coisa. Ela é relativa, e a múltiplos fatores combinados entre si, físicos e psíquicos, conscientes e inconscientes, e a combinação de todos eles produzem a percepção psíco-física individual.

Não existe uma dor absoluta denominada "dor do parto". Mas quero deixar bem claro o que significa isso que acabei de dizer, e a
principal coisa que isso NÃO significa é que a dor não exista. Porque o potencial pra doer beirando o insuportável é enorme. A
probabilidade de sentir a mais punk das dores é esmagadora. Sim, há quem não sinta nada, mas é exceção. Não contem com isso.

Dói tanto porque o parto humano é o que apresenta a relação céfalo-pélvica mais estreita da natureza. Um dia resolvemos descer das árvores e caminhar sobre duas pernas. Outro dia resolvemos engrossar nossa camada de neo-córtex cerebral. Bípedes e cabeçudos, porque somos metidos a não ser bestas. E na hora de parir nossos filhotes... agüenta aquele canal estreitinho onde mal se conseguia enfiar um ob dilatando até 10cm de diâmetro pra passar um bitelão de 4kg... Dói, mas literalmente, passa.

Essa dor alucinante pode ser reconhecida como suportável quando a mulher, em primeiro lugar, ACEITA a participação dessa dor no trabalho de parto. A atitude em relação à dor deve ser de aceitação de alguma coisa que faz parte da natureza do nosso corpo. A dor (do parto) não é alguma coisa a vencer, não é alguma coisa contra a qual devemos lutar, porque ela não resulta de uma patologia, ela não sinaliza alguma coisa que está errada, como uma fratura, por exemplo. Não. Ela sinaliza o processo fisiológico do parto. Essa dor é alguma coisa que só falta a gente enxergar que é aliada. Ela te deixa irritada e vc expulsa da sala quem tá sobrando, e vc não teria coragem de fazer isso se estivesse sóbria. Ela te leva a fazer força, ou a se contorcer, a gritar, e entre as contrações os intervalos são indolores e vc pode relaxar. A dor intensa leva ao transe, e esse transe tem que ser aproveitado, ele faz parte. E vem de dentro. Você não precisa de anestésicos, perneira, ordem pra fazer força, fórcipe. Você precisa de liberdade para vivenciar seu parto.

A dor do parto É você, que não deveria deixar esta parte de você ser subtraída por uma covardia que vem de fora. Quando uma mulher faz opção pela anestesia, certamente não foi pelas mãos dela que aquele aparato todo foi disponibilizado. Existem séculos de uma cultura desfeminilizante costurando essa rede em que se cai tão facilmente, como eu mesma caí nos meus partos. É o médico que precisa da anestesia, são os outros que precisam do conforto de uma mulher parindo quietinha, como uma boa menina.

E tem outro aspecto que eu acho muito interessante que é a coisa do ritual de passagem. Nós cultivamos algumas manifestações externas de rituais, como casamentos, batizados, bar-mitzvahs, aniversários, festas da primavera, e essas festas refletem a nossa necessidade humana de marcar as passagens das fases, de criança inimputável para o adulto responsável, da vida individual para a vida em família, de um período de dureza para outro de fartura, enfim, quando passamos de uma fase para outra sem essa marca fica faltando alguma coisa. É da nossa natureza. Tive um tio que foi tratado com hormônios nos anos 40 para acelerar seu crescimento. Na verdade ele foi cobaia das primeiras experimentações com hormônios no Brasil. De um dia para o outro ganhou pelos pelo corpo, engrossou a voz, a adolescência que deveria prepará-lo vagarosamente para a idade adulta veio num turbilhão que ele não deu conta e ninguém à volta dele compreendeu. Ele enlouqueceu.

Assim é com o parto. Quando se tenta ao máximo passar por ele como se nada tivesse acontecido - e o ápice disso é a cesárea eletiva, está-se pulando um ritual fundamental para o início da maternidade. E o efeito cascata começa: dificuldade de estabelecer vínculo com o bb, depressão pós-parto, "falta" de leite, intolerância ao comportamento do bb. O parto normal cheio de intervenções, do qual se diz "ah, foi uma beleza, não senti na-da!!! fiquei ali, conversando, e em xis (poucas) horas o bb nasceu!!" não é muito menos maquiagem da passagem. Sim, "de repente" o bb estava ali. E ela não precisou fazer nada. Inicia-se a maternidade com a sensação de que "não é preciso fazer nada" para ser mãe. E começa a transferência de responsabilidade... impulsionada pela sensação inconsciente de que a maternidade moderna NÃO PODE ser trabalhosa.

E esse caráter trabalhoso que a maternidade efetivamente tem, não é, como nossa sociedade acredita, um sofrimento, um castigo do qual devemos nos livrar. Ao contrário, ela contém o extremo prazer que sentem as pessoas que superam desafios, que começa pela superação da própria gravidez, convivendo por exemplo com enjôos e mudanças no corpo e na vida como um todo sem a compulsão de querer lutar contra isso. É irreversível.

O processo do parto vem sendo aprimorado há milhões de anos (ou milhares, depende do critério), e a humanidade definitivamente não aperfeiçoou este processo, apenas o corrompeu nos últimos anos. Anestesia, ocitocina na veia, posição horizontal, raspagens,
submissão a alguém como dono do parto, kristeller, episiotomia, tudo isso num trabalho de parto que está transcorrendo sem
intercorrências, não é evolução: é perversão. Das grossas.

Você e seu bb não precisam de mais nada além dos seus corpos com seus hormônios para permitir o nascimento. Mas não esqueça de ter alguém pra te dar uns beijos na boca e pegar seu bb!

E ainda faltou falar um monte de coisa."

Eu gostaria de ter escrito este texto...
Então é claro, concordo com cada vírgula!


Patrícia Merlin



03/07/2005
NASCENDO EM CASA


Documentos são aceitos como registro nos cartórios da região do Alto Juruá desde o início do mês

AC passa a reconhecer anotação de parteira
SÍLVIA FREIRE - DA AGÊNCIA FOLHA

A parteira Alzira Cordeiro Moreira, 58, do município acreano de Marechal Thaumaturgo, na divisa com o Peru, tem guardadas todas as anotações dos mais de 90 partos que fez desde que começou no ofício há 30 anos. "Tenho tudo anotadinho: se foi menino ou menina, como foi o parto, se correu tudo bem ou se teve problema."
No Acre, as anotações das parteiras começam a ser reconhecidas pelo poder público. Desde o início do mês, os cartórios da região do Alto Juruá - que engloba cinco municípios da porção oeste do Acre- estão aceitando formulários reconhecidos pelo Ministério da Saúde, preenchidos pelas parteiras para o registro dos recém-nascidos.
Até então, os cartórios exigiam para registro de crianças nascidas fora do sistema de saúde a presença do bebê, da mãe e do pai e, às vezes, até da parteira. Considerando as dificuldades de transporte na região, raramente essas crianças eram registradas. Agora, basta o pai levar o documento ao cartório.
O reconhecimento do Formulário de Notificação de Parto Domiciliar é parte do programa Nascendo na Floresta, da Secretaria da Saúde do Estado, em parceria com o Tribunal de Justiça do Acre. Como cerca de 40% das 334 parteiras cadastradas no Acre são analfabetas, o formulário é todo ilustrado.
"Temos famílias que ficam praticamente isoladas. Precisamos investir no trabalho das parteiras", disse Maria Gerlívia de Melo Maia, gerente da Saúde da Mulher da Secretaria da Saúde e idealizadora do projeto.
A meta da secretaria é aumentar em 15% os registros de nascimento e melhorar a qualidade dos dados sobre nascimentos, já que uma das vias do formulário é encaminhada à secretaria.
O Ministério da Saúde reconhece que há subnotificação de partos domiciliares. "Na maioria dos municípios, o trabalho das parteiras não está articulado com os serviços de saúde. São partos que não entram nas estatísticas", disse a médica Isa Paula Abreu, da área técnica do ministério.
Segundo Abreu, desde 2000, o ministério incentiva os gestores do Sistema Único de Saúde a trabalharem em parceria com as parteiras. Segundo dados oficiais, no Brasil, em 2004, aconteceram 30.896 partos domiciliares. Em 2003, foram 43.735.
Para a professora Dulce Maria Gualda, da Escola de Enfermagem da USP (Universidade de São Paulo), é fundamental que as parteiras tenham comunicação com o sistema de saúde para encaminhar aos centros de saúde os casos de maior risco.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2504200516.htm

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Dona Chica fez quase 2.000 partos em 54 anos

THIAGO REIS . DA AGÊNCIA FOLHA, EM ELDORADO (SP)

Francisca Lacerda Correa, a dona Chica, 76, possui um histórico de quase 2.000 partos realizados. Difícil encontrar alguém que não a conheça em Eldorado, município a 285 km de São Paulo.
A julgar pelos números, parte dos cerca de atuais 15 mil habitantes da cidade poderia ter nascido com a ajuda dela. É o caso dos dois últimos prefeitos, do escrivão de polícia e do frentista.
Apesar de todos os nascimentos, é de um, em especial, que ela não esquece. "Era só Deus e nós duas ali", conta, ao lembrar do parto do irmão, o primeiro que fez, aos 22 anos.
Passou a ser procurada pelas vizinhas grávidas. Em sua terceira experiência, fez um parto de gêmeos. Até então, dona Chica apenas ajudava a família no cultivo da banana. Antes de se mudar para o centro da cidade, fez cerca de 50 partos domiciliares "subindo muito em lombo de cavalo e em canoa pela madrugada".
No trabalho, usava apenas um cotonete e uma tesoura, que limpava com álcool. Os remédios para aliviar a dor eram todos a base de ervas, feitos em casa.
"Tinha vezes até que eu dormia, fazia o almoço e lavava as roupas da grávida no ribeirão. No fim, me davam uma gorjeta."
Dona Chica, que cursou até o equivalente à terceira série do ensino fundamental, sempre registrou os detalhes do parto em um caderno. Aprovou, ao ver, o formulário desenvolvido pela Secretaria da Saúde do Acre.
Hoje, quase 20 anos após sua saída do hospital, seu posto não foi substituído. Partos na Santa Casa, só em emergência. "No meu tempo, eu sozinha fazia 5, 6 partos por noite", afirma a parteira.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2504200517.htm

Patrícia Merlin





O que significa "doula"?

A palavra "doula" vem do grego e significa "mulher que serve". Nos dias de hoje, aplica-se às mulheres que dão suporte físico e emocional à outras mulheres durante a gestação, no trabalho de parto e parto e na amamentação.



Como é o trabalho da doula?
Durante a gestação a doula orienta o casal sobre o que esperar do parto e pós-parto. Explica os procedimentos comuns e ajuda a mulher a se preparar, física e emocionalmente para o parto, das mais variadas formas. Durante o parto a doula funciona como uma interface entre a equipe de atendimento e o casal. Ela explica os complicados termos médicos e os procedimentos hospitalares e atenua a eventual frieza da equipe de atendimento num dos momentos mais vulneráveis de sua vida. Ela ajuda a parturiente a encontrar posições mais confortáveis para o trabalho de parto e parto, mostra formas eficientes de respiração e propõe medidas naturais que podem aliviar as dores, como banhos, massagens, relaxamento, etc.. Após o parto ela faz visitas à nova família, oferecendo apoio especialmente em relação à amamentação e cuidados com o bebê.

Vantagens
As pesquisas têm mostrado que a atuação da doula no parto pode:
diminuir em 50% as taxas de cesárea
diminuir em 20% a duração do trabalho de parto
diminuir em 60% os pedidos de anestesia
diminuir em 40% o uso da oxitocina
diminuir em 40% o uso de fórceps.

Embora esses números refiram-se a pesquisas no exterior, é muito provável que os números aqui sejam tão favoráveis quanto os acima mostrados.

Saiba Mais:

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