18/11/2005
Um TP inspirador, o parto nem tanto.
Quando eu cheguei quase às 19h, a
E. dividia a sala de TP com a
M. Ela estava acompanhada da mãe que era um misto de angústia e felicidade, apoio e apreensão.
O toque havia sido feito a pouco, 7cm e ela tinha acabado de sair do banho, que foi tomado com a intenção de aliviar o calor e não de ajudar no TP. Ela estava deitada, sem soro e tendo contrações ritmadas.
A mãe sai do quarto pra trocar de lugar com a nora. Enquanto ela não chega, eu aproveito pra conversar com a
E.. Explico o meu papel e o que eu acho que ela deve fazer para que as dores fiquem mais suportáveis, falo das posições, das massagens e do quanto o TP depende dela, etc.
Eis uma das mulheres em TP no voluntariado mais receptivas de todos os tempos. Ela estava sentindo muita dor, uma enorme vontade de gritar e se mexer, mas estava com medo. Não precisou de muito incentivo para mudar tudo.
A cunhada entra e fica ao nosso lado, segurando a outra mão da
E., nos ajudando nos movimentos, etc.
Ela sentou, ergueu as pernas, fez posição de borboleta, saiu da cama, caminhou, rebolou, agachou, gritou, gemeu, descansou, permitiu massagem, etc, etc. Ela fez tudo o que pôde!
Num determinado momento o residente entra no TP e diz:
-Não grita, não! Gritar prende o bebê!
E quando ele saiu eu disse:
-Faça o que te der a cabeça, só não se desespere, seu corpo sabe como deve agir...
Não é uma questão de querer ir contra o médico, mas queria ver se fosse com ele... Se ele ia querer gritar, gemer ou ficar calado.
Menos de uma hora depois, ela estava com dilatação completa. Neste toque, estávamos eu, a mãe, o médico e o residente. Fizemos festa pra ela, parabenizando o esforço e explicando os próximos passos.
O médico pede à enfermeira que a leve ao CC e me pergunta se eu quero ir.
Hum... mudanças! Nem foi preciso pedir! É claro que eu fui!
De novo temos uma mulher deitada de barriga para cima, pernas no estribo, o residente falando pra fazer força e querendo cortar (o médico mandando esperar, mas ela não escapou da epsiotomia), o médico pressiona a barriga dela, não chega a ser um Kristeller, o residente não pára de mexer na vulva dela, como que alargando a saída. Isso me incomoda muito, dá muita vontade de falar pra ele parar, pra tirar a mão!
Nasce o
JP. Um bebê bem grande, já cheio de dobras. Tudo bem com ele, fazem os procedimentos de rotina (aspirar vias, limpar, etc), enrolam o pequeno num pano e trazem pra E. ver, ela dá um beijo nele, conversa e a pediatra já ia saindo quando eu disse:
-Ele não pode ficar um pouco mais? Posso colocar o bebê no peito dela?
A pediatra olha pro médico, ele consente e ela me pede para levar o bebê ao berçário depois, por que ela não pode esperar. O que acontece é que a UTI neonatal fica em outro andar e a pediatra vem de lá para atender os partos. Então ela não pode ficar.
O
JP. ficou uns 20 minutos com a mãe. Ergui a roupa dela e o coloquei deitado próximo ao seio. Ele não mamou, mas ficou lá sendo babado pela mãe. Aproveitei e falei um pouco (bem pouco mesmo) sobre vínculo e amamentação com ela.
A enfermeira do CC comenta que este é o verdadeiro parto humanizado! Mordo a língua pra não responder. Falta tanto ainda.... mas tudo bem, um passo de cada vez.
Depois levei o bebê pro berçário, onde ele tomou banho, vacinas, foi trocado e admirado pela família, e voltei pro CC.
A expulsão da placenta demorou bastante, ela precisou tomar ocitocina pra ajudar e depois que eu saí do CC, ela teve uma enorme queda de pressão e uma pequena hemorragia.
A maternidade estava cheia hoje e muitas mulheres passaram por consulta. Acho que não comentei aqui, mas quando o médico entra na sala com elas, precisa haver outra mulher e quase sempre sou eu.
Também passei nos quartos para a tradicional conversinha do peito com uma ou outra mãe.
Ah! Hoje tinha uma menininha japonesa, coisa mais fofa! O cabelo dela era pretinho e espetado, como os dos bebês orientais, só que tinha as pontas bem claras! Parecia que ela tinha feito luzes! Pode?
Patrícia Merlin

24/11/2005
Este texto não foi escrito por mim, mas como está bem explicadinho, estou usando (com a devida autorização).
Caros Amigos,
Alguns entre vocês já passaram pela experiência da maternidade ou paternidade vivenciando a chegada de um bebê. Outros ainda não, mas existe a possibilidade.
Este mail que escrevo é para falar sobre algo que é chamado "Parto Humanizado". Antes de ficar grávida eu não sabia o que era. Aos poucos fui descobrindo que a gestação e o momento do parto poderiam ser vividos de um modo bem diferente do que a medicina convencional nos ensina.
Hoje, no Brasil, como em diversos países, existe uma grande mobilização de movimentos sociais, mães, pais, e alguns profissionais da área de saúde no sentido de resgatar a humanização do parto não deixando que este seja tratado apenas como um procedimento cirúrgico.
Na próxima semana, entre os dias 30 de novembro e 03 dezembro, no Rio de Janeiro (Riocentro), acontece a II
Conferência Internacional Sobre Humanização do Parto e Nascimento.
A grande particularidade deste evento é que, além de ter uma parte da programação voltada aos profissionais da área de saúde, ele também abre espaço para nós, mães, pais, futuros pais e toda pessoa que, mesmo optando por não ter filhos, acredite que o nascer é um momento único e, como tal, merece ser vivido em toda sua plenitude.
No dia 30, de 13h30 às 17h30, acontece o Forum dos Movimentos Sociais. A participação neste dia é gratuita, sendo necessário apenas se inscrever enviando um mail para: ingrid.lotfi@rehuna.org.br
Para saber mais sobre o Congresso, basta acessar: http://www.congressorehuna.org.br
Patrícia Merlin

11/11/2005
Muitas consultas, nenhum TP!
A maternidade estava lotada, uma confusão de pacientes, médicos e estagiários, mal dava pra andar! Mas não tinha nenhuma mulher no TP. Só consultas!
A teoria do Dr. J. se confirma: em dias quentes, a maternidade fica cheia de grávidas com menos de 38 semanas. Qualquer sintoma, mesmo que não relativo ao trabalho de parto, é motivo para que elas saiam de casa pra uma consulta. O frio inibe este tipo de reação impulsiva.
Fiquei lá no meio da bagunça, acabei ajudando em assuntos administrativos pela primeira vez. Quando a situação acalmou um pouco, fiz umas internações, arrumei cama, ajudei duas grávidas a se acomodarem, tomar banho, pedi comida pra elas, essas coisas....
Depois, fiquei no berçário com a Dr. Maria Cristina (pediatra, do meu filho inclusive), auxiliando o atendimento dela á uma mãe que estava com problemas na amamentação. Quando ela foi embora, segui para o quarto com a mulher e lá fiquei até a hora de ir embora. Rendeu uma boa conversa sobre amamentação (e no quarto tinha mais 3 recém paridas).
Patrícia Merlin

28/10/2005
Estava eu em São Paulo... Meu marido me liga pra dizer que alguém da Santa Casa tinha vindo me buscar aqui na porta, por que tinha muita mulher em TP no hospital e eles precisavam de ajuda.
Agora me fala: por que isso acontece quando eu não estou aqui????
ps. estive de férias por 20 dias, por isso a falta de atualização.
Patrícia Merlin

11/10/2005
Senac
Fui convidada para um bate papo informal com a turma do curso Técnico em Enfermagem. Eles estavam fazendo um trabalho sobre humanização do atendimento e acharam meu nome no Doulas do Brasil. Me ligaram, conversamos um pouco e decidi ir.
Preparei um plano pra tentar seguir na hora, mas no fim a coisa fluiu como deu. Eu fiquei nervosa no começo, desacostumada das salas de aula (sou professora, pra quem não sabe), mas logo fiquei à vontade e foi muito legal.
Elas fizeram perguntas, tentei ser o mais clara possível, deixei indicações de leitura, sites, blogs e por fim assistimos o vídeo Parir e Nascer.
Eu gostei da experiência e voltei pra casa com um vasinho de mini margaridas, muito fofo!
Patrícia Merlin

07/10/2005
Serviço completo!
Cheguei mais tarde que o habitual hoje e uma mulher havia acabado de ter seu bebê. Ainda gozaram da minha cara, dizendo que eu cheguei atrasada para o que provavelmente, seria o único nascimento da noite. Peguei fama de pé quente (pra eles, né?), por que basta dar a minha hora de entrar, que as consultas encerram, não há admissão e conseqüentemente nenhum TP.
A
A. estava sozinha no TP, com ocitocina na veia e bastante desconfortável. Começamos conversando sobre a evolução dela, nome, um pouco sobre o bebê, etc. Chegou cedo demais ao hospital e estava impaciente. Não ajudou muito no processo, queixando-se de toda orientação que era dada. Não queria se ajeitar na cama, não conseguia levantar a perna, nem ficar de lado. Comportamento típico de entrega, que dificulta muito as coisas por que dá a impressão de que a pessoa não quer ajuda nenhuma, quando na verdade é bem o contrário.
Com muito custo, consegui que ela sentasse na cama, ergui o leito, arrumamos os lençóis, ela penteou o cabelo, pediu água. Pareceu mais à vontade com a minha presença.
Quando cheguei, o último toque apontava 4cm de dilatação. Meia hora depois, às 20:30h, 6cm.
O máximo que eu consegui fazer foi ficar ao lado dela, segurando a mão bem forte durante as contrações, acariciando seu braço, enxugando o suor dela e falando palavras de incentivo. Às 22:30h, 8cm de dilatação, colo fino, bebê descendo. Antes disso, o soro escapou da mão dela e demoram pra vir recolocar. Ficaram especulando se a lentidão do TP era por causa disso, aumentaram o fluxo do soro. Colocaram o cardiotoco, tudo normal.
Por volta de 23h, o médico cruza comigo no corredor e pergunta como estão as coisas. Sou sincera ao dizer que ela não está ajudando muito e ele entra no quarto para ver como ela está. Ele meio que deu uma chamada nela, não uma bronca, mas um sacode... E ela de repente se pôs a colaborar mais. Logo estava com dilatação completa e começamos a ensaiar a força que ela deveria fazer pra ajudar na decida. Eu segurava a mão dela de um lado e o médico do outro. Em poucos minutos ele diz: Vamos para a sala de parto. Ela pede que eu a acompanhe, eu olho pro médico e repito o pedido. Ele concorda! Chega o dia da minha primeira entrada no CC, meu primeiro expulsivo no voluntariado!
Ajudei-a a subir na maca, levei-a até a porta do CC e fui me trocar. Roupinha verde, toquinha, máscara, sapatinho e lá fui eu, feliz da vida! Infelizmente as condições não são as melhores. Mulher deitada de barriga pra cima, pernas pro alto, ambiente impessoal. O médico me apresentou pra equipe e decidiram que me chamar de apoio é mais fácil do que me chamar de doula.
Ela fez força umas 4 vezes e o médico decidiu pela epsio. Então, na próxima força, nasce o
T. Todo sujo de mecônio muito espesso, não chora imediatamente. A pediatra inicia os procedimentos, sai uma quantidade preocupante de mecônio na cânula, chamam a pediatra da UTI neo natal. A mãe está alheia ao que acontece, o bebê chora um pouco e ela me pergunta se está tudo bem. Digo que sim, que as pediatras estão cuidando dele e que já o trarão para ela. No fim, ele abre os olhos, chora com vontade, mas como ainda respira muito rápido, cansado, decidem descer com ele para a UTI. Ficará em observação. Ela parece ficar tranqüila com as explicações que recebe, pergunta pra mim se é só isso mesmo.
Enquanto o médico sutura e epsio, a gente conversa sobre o que passou, ela ri de como estava mal humorada e de como não ajudava. Agradece à mim, não larga minha mão um só segundo. Agradece aos demais e pede a Deus pra que seu pequenino fique bem.
Saio do CC, dou de cara com a irmã dela, que estava o tempo todo com a gente durante o TP (nem mencionei, né?, a mulher atrapalhava muito, só falava coisas inadequadas, quando saía de perto era um alívio). Ela me pergunta por que o bebê não ficou no berçário e na mesma hora antes que eu possa responder, o médico entra na sala. Ele começa a explicar e ela fala em culpa. Ele ficou um pouco perturbado com esse comentário, não por que houvesse culpa, mas acredito que seja por que a mulher nem esperou que ele explicasse direito.
Depois, nós (eu e o médico) conversamos sobre a possível cesárea que seria encarada como salvadora, já que elas provavelmente pensarão que se tivesse feito a cirurgia, nada disso teria acontecido ou que teria conseqüências menores.... Mas o mecônio estava lá há tempos, não tem nada a ver com um TP demorado ou com a convicção do PN. Muito pelo contrário, já que a passagem pelo canal de parto pressiona o tórax, ajudando a expelir os líquidos. O duro é que como nenhuma delas tem a menor noção do que é certo, errado, esperado, anormal, a situação vai ficar no imaginário delas da forma como elas resolverem interpretar. Provavelmente não adiantará nada ter explicado.
Antes de ir embora, eu desci com a tia do bebê até a UTI e fiquei esperando até que ela pudesse entrar.
Patrícia Merlin
