27/01/06
Parto sem episio!!
R., primigesta, 41 semanas, 2cm de dilatação, internada desde às 11:30 da manhã. Acompanhada da mãe, estava deitada na cama, sem dores e sem nenhuma vontade de sair do lugar. O médico tinha colocado remédio na vagina pra estimular as contrações um pouco antes de eu chegar e precisei gastar muita saliva para fazer com que ela decidisse sair da cama. Mas, uma vez de pé, caminhou muito, subiu e desceu escadas e rampas, sentou na bola, colaborou.
Ela não era muito de falar e como as dores pareciam muito suaves, eu raramente sabia quando ela estava tendo uma contração. Ela não parecia querer nada daquilo. Fiquei com a sensação de estar forçando a barra e decidi dar mais espaço pra ela.
O resultado disso é que ela ficou muito tempo deitada e começou a resmungar que não sentia nada. A esta altura a
M. já tinha chegado e como expressava muito mais objetivamente o seu desconforto e pedia constantemente meu apoio, decidi dar mais atenção á ela do que a
R.
Estávamos todas no mesmo quarto e eu sempre perguntava pra
R. como ela estava, se não queria andar, tomar banho, se queria massagem entre as contrações e ela não se animava, nem parecia que estava em TP. Acho que aos poucos o TP da
M. foi contagiando o ambiente e ela decidiu sair da cama e caminhar na companhia da mãe. Em pouco tempo as dores começaram a ficar mais fortes, mas ela acabou voltando para a cama. Às 23h, depois de 5 horas de TP induzido, ela evoluiu mais 2cm e teve a cesárea indicada.
M., primigesta, 40 semanas, chegou com 1cm de dilatação e fazendo muito barulho. Ela parecia estar no período de transição desde o começo e também aparentava total descontrole sobre o que sentia. Caminhar era quase impossível, pois as contrações estavam muito próximas umas das outras. De pé, ela se apoiava em mim, largando completamente o corpo para a frente.
Ela não conseguia ficar deitada ou sentada na cama, queria mesmo era apoiar em mim, sentar na bola e ficar de joelhos no colchonete. Isso até antes de descobrir o vaso sanitário. Nele, ela se transformava, parecia mais centrada, mais tranqüila, embora ainda sentisse dor. O banho de chuveiro tinha o mesmo efeito calmante sobre ela.
A
M. é o tipo de mulher que as maternidades não gostam... ela gritava muito e muito alto. Pra quem estava de fora, parecia total desespero. Na verdade, nós rimos bastante juntas, por que ela falava umas coisas engraçadas e tinha umas reações irritadas, totalmente nada a ver entre as contrações.
A evolução dela estava muito lenta, o que a deixava ainda mais irritada, por que ela estava vendo o processo como algo muito doloroso, muito intenso e reclamava de não ser justo demorar tanto para conseguir só mais 1 ou 2cm. É difícil convencer uma mulher nesta situação de que mais 1cm é muita coisa, que o pensamento deveria ser: já foram 4cm! e não: ainda faltam 6!!
Quando o residente veio examinar a
R. e indicou a cesárea, ele examinou a
M. também e como ela estava com 4cm (esperava-se que fosse mais), ele disse que ia levar a
R. pro CC e na volta se ela não tivesse evoluído mais, seria encaminhada pra cirurgia.
Ela seguiu o curso dela, respirando, levantando, gemendo, etc. sem se importar muito com o desfecho. Senta, levanta, anda, bola, vaso, agacha, pendura em mim....
Precisei ir até a portaria, por volta de meia noite e aproveitei para procurar o marido dela e dar uma posição. Eis que descubro que o conheço!! Conversamos um pouco, falei da possível indicação da cesárea e voltei pra ficar com ela. Acho que ter certeza de que o marido estava lá fora esperando, deu um novo ânimo para ela e em pouco tempo ela chegou à dilatação total.
Um pouco antes da 1h da manhã, ela foi encaminhada ao CC (antes da
R. que foi pra cesárea!!) e eu fui junto. Ela estava cansada, mas não foi preciso fazer muita força, o
F. logo nasceu, sem que a mãe dele precisasse de uma epsiotomia.
Dado curioso: o residente só percebeu que não fez epsiotomia, depois de ter cortado o cordão e passado o bebê para a pediatra. Ele me olhou com olhos arregalados e disse: ah... nem teve epsio! E ainda disse que foi por que ela ficou na minha bola... O hábito é tão grande que o cara só percebe que não fez, depois!
C., primigesta, soropositiva para HIV, chegou na maternidade com contrações e 4cm de dilatação. A cesárea foi indicada por causa do HIV, mas antes de entrar para a cirurgia, ela precisava tomar alguns medicamentos. O TP dela também foi ficando intenso, mas eu mal consegui dar suporte, por que estava acompanhando a
M. De qualquer maneira, as poucas massagens que consegui fazer nela, foram lembradas mais tarde como: a melhor coisa do mundo naquele momento... palavras dela.
Patrícia Merlin
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Ainda tenho vários relatos para publicar, mas vou dar um tempo, por que coisas bacanas aconteceram no últimos mês e eu quero contar!!
20/01/2006
Usei a minha bola pela primeira vez!
Faz um tempo que eu ganhei uma bola suíça, mas nunca tinha usado! Hoje foi dia de estréia!
No TP somente a
E., primigesta, 41 semanas, grávida de uma menina, a
S. Quando eu cheguei, ela estava deitada, tinha acabado de tomar um banho e de colocar um comprimido pra induzir as contrações. Começava a sentir leves dores que irradiavam das costas para a barriga.
Me apresentei e expliquei como era o meu trabalho. Ela gostou de saber que teria companhia, embora a mãe dela estive ali também. Saímos as 3 para caminhar pelo hospital e uma enfermeira do turno da tarde que cobria o plantão de uma outra da noite, não quis me deixar sair do setor. Eu questionei, por que ninguém nunca disse que eu não podia sair dali e achava que talvez ela não soubesse exatamente o que eu estava fazendo lá. Ela insistiu e foi um pouco grosseira até. Ela saiu de perto e eu dei de cara com o residente, que nos liberou para o passeio. Antes de passar pela porta do setor, ainda a vi se espichando toda pra me olhar e fazendo cara de poucos amigos. Andamos o andar todo, subimos e descemos escada e rampa.
Sentamos para tomar um fôlego e fui explicando um pouco mais sobre os processos do TP. Ela recebeu com muito entusiasmo as informações que eu passava e a mãe dela também. Foi ficando cada vez mais tranqüila com a decisão de ter o parto normal. A mãe dela nos contou histórias curiosas e lindas sobre os nascimentos na família. O avô da
E. fez o parto de todos os filhos da avó, em casa e tinha o maior orgulho disso.
Voltando para o quarto, encontramos a auxiliar com o enfermeiro responsável do turno da noite. Ela me segurou e eu nem ouvi direito o que ela falava, mas acho que quis explicar seus motivos para ter me barrado antes e o enfermeiro só disse que já havia conversado com o médico e que estava tudo bem.
A
E. ficou toda feliz rebolando na minha bola e mudando de posição de vez em quando. As dores começavam a ficar um pouco mais intensas e ela aceitou a massagem. Saímos para andar outra vez. Não estou bem certa da ordem dos acontecimentos, mas depois de um tempo o residente veio fazer um toque e constatou que a dilatação dela estava igual, ou seja, menos 1... E quando ele disse isso pra ela, o rosto dela se transformou, ela não quis mais sair da cama e dizia-se cansada. Dei um tempo pra ela e fui receber uma outra menina que havia acabado de chegar.
T., adolescente, primigesta, 41 semanas, mecônio. Eu não sei nada sobre o cardiotoco dela, mas o residente indicou cesárea e o médico concordou. Ela ficou feliz com a decisão. Recebi a mãe dela uns minutos depois e pude ver o primeiro banho do
C.
Então eu voltei pra
E., que neste ínterim havia feito um cardiotoco, ficamos cerca de meia hora conversando, ela chorou, sentia-se frustrada, tanto empenho e nenhum dedo de dilatação. Tentei consolá-la e fazê-la entender que o TP é assim mesmo, que dentro em breve ele poderia deslanchar, mas que pra isso ela precisava mudar a postura e o pensamento, dar valor aos momentos vividos e colaborar o máximo que pudesse com o TP.
Ela decidiu caminhar novamente, mas antes quis ir ao banheiro e quando sentou no vaso a bolsa dela rompeu. Ela me chamou assustada e perguntou se era isso mesmo, concordei e perguntei se ela tinha visto o líquido. Infelizmente não estava límpido, havia mecônio escuro e espesso. Não mencionei nada pra ela e pedi que ela deitasse um pouco, já que o líquido não parava de sair.
Avisei a enfermagem sobre o mecônio e elas chamaram o médico que havia terminado a cesárea da T., mas ainda estava no CC. Ele veio e juntos fomos ver a
E., ele me pediu para pegar o cardiotoco dela e mostrou no gráfico o que seria indicativo de possível sofrimento fetal (em W). E indicou a cesárea.
Ela ficou muito temerosa e fez muitas perguntas, pra no fim desabar num choro misto de tristeza e alívio. Fiquei com ela até que ela fosse levada para o CC e vim embora logo em seguida, pois já estava muito tarde.
Hoje o GO conversou comigo sobre as idéias que eu ando tendo com relação à minha atuação e ele foi muito receptivo, diz que quer me apoiar na minha jornada, mas que não sabe nem como começar. Me pediu cautela e perguntou se eu estou pronta para ser apontada, criticada, avaliada...
Aproveitando, perguntou se eu estaria interessada em fazer uma experiência, trabalhando com ele no TP de uma paciente particular. Caro leitor, você tem apenas uma chance para adivinhar a minha resposta! hehe
Patrícia Merlin
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Relato nº 6
Na data em que completava 42 semanas marcaram a última consulta e eu fui me tremendo, com o coração na mão, pois nesse dia eles iriam avaliar tudo e me dar a resposta se considerariam as outras 2 ultras e a DUM e me dariam mais uma semana ou me transfeririam para o hospital no mesmo dia. Eu me sentia como se fosse ouvir uma sentença de culpada ou inocente. Cheguei a falar com o Athaide, meu marido, que se eles não reconsiderassem a data eu me trancaria em casa e só sairia de lá depois que a Flor tivesse nascido.
Nesse dia a consulta demorou bastante devido aos TP's em andamento que estavam na Casa e encontrei minha quase-doula Ingrid e foi uma ótima surpresa, pois foi bom receber um pouquinho da energia positiva dela através de um abraço. Acho que ela nem percebeu, mas como foi bom receber aquele abraço.
A hora da consulta chegou e lá fomos nós. Quem me atendeu foi uma enfermeira que nunca tinha me atendido, mas eu já a conhecia das oficinas. Assim que ela viu minha idade gestacional começou a falar da transferência, mas eu logo abri a boca e com uma confiança que rugia dentro de mim defendi que não... que eu tinha mais uma semana e mostrei as outras 2 ultras. Ela falou que isso era sério e chamou a coordenadora da Casa que já me conhecia por causa do plano de parto que eu tinha feito.
Conversamos bastante e depois que reviram as ultras, os exames de CTG que eu vinha fazendo e mostravam que a Flor estava ótima e as contrações já estavam presentes há algum tempo e após um exame de toque que mostrou que eu estava com 1cm de dilatação e o colo 50% apagado, eu tive o prazer de ouvir que não seria transferida naquele dia, mas teria mais 5 dias pela frente. Isso já me bastou. Eu tinha certeza que minha filha nasceria antes disso.
Eu saí de lá nas nuvens, com a certeza de ter feito o melhor pela minha filha lutando pra não "roubar" o tempo dela.
No dia seguinte de manhã, quinta-feira, senti algo molhado e
quente saindo. Logo coloquei a mão e percebi que era o famoso tampão começando a sair. Eu comecei a rir e pular de alegria no quarto mesmo e fui saltitando pro banheiro onde o Athaide estava e mostrei pra ele:
"Olha amor! É o tampão! A Agnes tá dando sinal que não demora a chegar!".
Um pouco depois começou uma colicazinha chata, mas nada
muito diferente do que eu já vinha sentindo já há alguns dias.
Nesse dia eu tinha marcado de ir ao mercado com o meu pai fazer compras e o Athaide não queria que eu fosse porque as cólicas poderiam piorar. Fui assim mesmo e as cólicas foram piorando, mas pra mim era uma alegria. De vez em quando era bem mais dolorida e eu fazia uma careta, mas logo lembrava que era a Flor que se aproximava e sorria novamente.
Cheguei do mercado e ao invés de cansada eu estava era com
uma baita disposição. Resolvi limpar a geladeira, lavar a cozinha,
lavar os tapetes, as roupas e a noite estava um caco de cansada.
Tomei um banho e fui dormir.
No dia seguinte acordei com dor na lombar, mas como não é raro eu ter essa dor e além disso no dia anterior abusei um pouco lavando os tapetes, achei normal. Fui caminhar um pouco com o Athaide e as dores nas costas só piorava. Eu sentia como se tivessem abrindo minhas costas. Isso durou todo o dia.
Hora doía mais, hora doía menos. À noite as dores começaram a piorar e eu não conseguia ficar sentada, então resolvi ir na casa da minha tia bater papo. Fui e conversamos bastante. Eu falei pra ela que sentia que a Flor estava bem próxima e ela me perguntou como eu estava em relação à ter necessidade de ser transferida pro hospital. Eu falei que estava bem tranqüila, por que na noite anterior eu sonhei que estava num barco em alto mar e tinha muitas ondas e eu perguntava quem estava guiando o barco, por que eu estava assustada com as ondas e me falavam que Deus é quem estava no comando e que eu devia apenas confiar. E esse sonho pra mim foi um aviso de Deus pra eu apenas confiar nEle que Ele estava no comando. Ela disse que ficava mais tranqüila com isso, por que sentia no coração que eu não teria minha filha na Casa de Parto e sim no hospital.
Fui embora eram 22hs e chegando em casa tomei um banho quentinho e fui me deitar 00hs com a mesma dor nas costas que senti o dia todo.
Quando foi 2 da manhã eu acordei com a mesma dor, só que estava muito mais forte, mas agora a dor vinha e ia embora todo o tempo. Aí euzinha, marinheira de primeira viagem pensei: "Será que isso não é dor da coluna e sim contração?" Até então eu achava que contrações fossem dor na barriga ou mesmo na vagina e não aquela dor horrível de sentir a coluna se abrindo... Resolvi cronometrar essa dor pra me certificar se eram contrações mesmo ou não. Fiquei um pouco surpresa ao perceber que estavam mais do que cronometradas: de 6 em 6 minutos e com 1 minuto exato de duração. Nessa hora a ficha caiu de vez e percebi que eram contrações sim e que finalmente era a Flor que estava cada vez mais perto. Me senti tão feliz, tão leve, tão abençoada que
mesmo com a dor eu só ria e agradecia a Deus, ao meu corpo e à minha filhotinha. Continuei cronometrando e um pouco depois as contrações ficaram ritmadas de 5 em 5 minutos.
Quando deu 4 da manhã e a dor já estava bem mais forte, resolvi chamar o Athaide pra me fazer companhia, por que eu estava com sono, mas não conseguia me deitar. Ele levantou e eu falei que nossa Flor ia chegar naquele dia. Ele me deu um abraço e
perguntou o que podia fazer, então pedi pra ele ficar anotando pra mim os intervalos das contrações. Ele foi anotando, mas como estava caindo de sono, não conversava tanto comigo como eu queria, então pedi pra ele ir chamar nossa vizinha que é uma grande amiga minha. Ele a chamou e pra minha surpresa, ao invés dela apenas me fazer companhia, ela ficou apavorada, começou a gritar com o sotaque baiano que ela nunca perdeu: "Vai nascer! Vai nascer! E agora? Temos de ir pro hospital, rápido!". Eu estava tão serena e tão feliz que só conseguia rir com a situação... eu falava pra ela: "Pára Milene, que não dá pra ficar gargalhando com essas contrações". Mas eu não conseguia parar de rir. E ela me mandando sair do banheiro que o bebê podia nascer ali. E eu falei pra ela que se nascesse em casa não tinha problema... ia ser maravilhoso. Aí é que ela ficou mais nervosa ainda! Foi cômico... parecia cena de comédia pastelão, ela gritando, o marido dela bêbado falando pra ela ficar calma, o Athaide no sofá quase dormindo com o papel e a caneta na mão e eu rindo da loucura que
eu me meti.
Quando deu 5 da manhã eu comecei a me sentir diferente, só queria ficar quieta, sem falar, me sentia em outro plano, fora dali. As vozes estavam longe, eu quase não os ouvia mais e também não conseguia falar muito. As contrações vinham cada vez mais fortes e eu pedi pro Athaide ligar pra minha mãe avisando que iríamos pra Casa de Parto.
Enquanto esperava por ela, coloquei um CD de músicas suaves e fui tomar um banho bem quentinho. No chuveiro eu deixei a emoção que tomava conta de mim fluir e chorei. Chorei de alegria em perceber meu corpo trabalhando com perfeição, chorei por que sentia que logo a Flor estaria nos meus braços. Eu também sentia vontade de dançar e fiquei ali não sei quanto tempo, chorando, acariciando a barriga e dançando... O banho foi maravilhoso e quando saí de lá me senti como se eu e a Flor estivéssemos na mesma sintonia. Eu sentia as contrações e percebia ela descer.
Minha mãe chegou e ela estava bem mais calma do que
imaginei que ela ficaria. Logo entrei no carro, encostei minha cabeça e tentei relaxar. Da minha casa pra Casa de Parto é uns 10 minutos e eu nem vi nada, quando abri meus olhos já estávamos lá. Fui recebida pela enfermeira, mas eu não conseguia falar muito.
Quando deitei pra ela me examinar fiquei tensa, com medo dela dizer que eram apenas pródomos. Ela verificou minha pressão, verificou as contrações e fez o exame de toque. Ela disse que eu ainda estava no inicinho do trabalho de parto, que estava com apenas 1cm de dilatação e saiu da sala dizendo que voltava logo.
Nessa hora eu olhei pro Athaide desesperada e acho que ele entendeu pq logo pegou minha mão como se dissesse pra eu ficar calma. Me desesperei por que as contrações estavam muito, muito fortes e eu achava que já estava com pelo menos 5 de dilatação, mas não... estava com 1! A mesma coisa de dias atrás!
Curioso que até então eu estava super confiante em mim mesma e não sentia a dor tão forte, mas depois de ouvir isso parecia que as
contrações se tornavam insuportáveis. Ela voltou e disse que eu não seria admitida naquele momento, por que ainda estava com pouca dilatação, lá só se é admitido com no mínimo 5cm de dilatação, mas que eu ficaria na suíte pra observação, pois minha pressão estava 15X10 e a gravidez toda ela ficou em 9X5.
Apesar da pressão estar alta, não fiquei preocupada. A certeza de que tudo terminaria bem estava mais do que presente.
Fui para a suíte e me deitei pra fazer o CTG onde foi confirmado que a Flor estava ótima. Continuei deitada fazendo o exame por mais algum tempo, mas pedi pra ir ao banheiro fazer xixi. Quando comecei a me levantar, senti uma água quente escorrer por minhas pernas e molhar a cama toda, o líquido não estava clarinho, mas um pouco amarelado/esverdeado. Olhei e já sabia que era a bolsa que tinha finalmente rompido e estava com um pouco de mecônio. Pronto! Agora eu tinha certeza que ela nasceria nesse dia.
Fui ao banheiro e cadê a vontade de fazer xixi? O enfermeiro veio falar comigo e perguntou se eu sabia o que estava acontecendo e eu confirmei. Ele confirmou que o líquido estava com mecônio, e não era pra me preocupar, por que estava bem diluído, mas que como eu ainda estava bem no início do TP era bem provável que eu fosse transferida pro hospital, já que o TP poderia durar horas e o mecônio ficasse mais denso. Eu já sabia disso tudo e o Athaide tb, mas minha mãe não e perguntou à ele que com toda atenção
explicou tudo à minha mãe.
Depois que a bolsa rompeu, as contrações estavam de 2 em 2 minutos e ficaram punks de verdade, era uma dor horrível e eu já andava pela suíte xingando tudo que é palavrão conhecido. E nem ligava por estar com o roupão aberto, nua. Ora o Athaide, ora a minha mãe vinham querendo fechar o roupão pra eu não
ficar exposta, mas eu olhava pra eles com uma cara tão feia que eles acabaram desistindo.
O enfermeiro Rafael viu como eu estava tensa e me lembrou pra inspirar pelo nariz e expirar devagar pela boca durante as contrações. Claro! Eu tinha me esquecido disso! A partir daí eu
comecei a inspirar e expirar profundamente durante as contrações e segurava forte a mão do Athaide e melhorou um pouco. Teve uma hora que eu falei pro Athaide que não ia aguentar mais, que não ia conseguir e ele começou a me dizer que eu estava indo muito bem, que eu era forte, que eu ia conseguir sim! E que a Flor também estava trabalhando e eu precisava ajudá-la a nascer, que ela estava próxima e perguntou se eu não queria vê-la. Como foi bom ouvir tudo isso e muito mais! Como foi bom ele ter me acompanhado em todas as oficinas e ter se empoderado junto comigo durante a gravidez!
Um pouco mais confiante, comecei a trazer a minha mente que as contrações eram como ondas que vinham e iam e me lembrei do sonho que tive que estava no barco com ondas enormes e eu fechava meus olhos durante as contrações e via isso... via ondas enormes virem e aí eu inspirava profundamente e expirava devagar lembrando que a onda já estava indo... E falava pra
mim mesma em voz alta: "Olha a onda, ela está vindo, mas logo ela passa" E assim as contrações vinham e iam.
Um tempo depois o enfermeiro Rafael voltou à suíte e falou que iria me reexaminar pra saber se houve algum progresso na dilatação. Ele mediu minha pressão novamente e estava 14X8 e fez o toque e disse que não houve quase nada, pois estava ainda com 2cm de dilatação e falou que sendo assim eu realmente seria transferida pra maternidade.
Nessa hora eu só olhei pro relógio e vi que eram 8:30 da manhã. Estava com contrações de 5 em 5 minutos há mais de 5 hs e eu tive dúvidas se iria conseguir continuar com as contrações até ter dilatação total. Então ser transferida pra maternidade ou não já tinha perdido a importância. Eu só queria que a dor terminasse logo.
Lembrando depois de como percebi a dor em casa, enquanto achava que a dilatação estava progredindo e depois, na Casa de Parto, quando constataram que mal tive dilatação, vi que a não foi a dor que ficou insuportável, mas sim eu que fiquei tensa demais e insegura ao extremo. Eu só pensava que se a dor já estava tão forte com 2cm, como eu conseguiria chegar à 10! E pensar na possibilidade de ir pra maternidade e ter TP agilizado com ocitocina só me deixava mais tensa o que me fazia ter uma percepção da dor muito maior. Em casa estava tudo uma delícia. As contrações estavam fortes, mas eu estava tranqüila, segura de que meu corpo estava funcionando e eu tenho certeza que estava e já estava tendo dilatação, sim! Eu sentia o meu corpo trabalhar!
Quando eu me concentrava no TP, respirava corretamente
e mentalizava as ondas as contrações ficavam bem tranqüilas, mas quando me lembrava que não estava tendo dilatação me desesperava e a dor parecia que iria me matar. O que me faz ter a certeza de que a dor em si não é insuportável, mas sim que depende muito de como nos sentimos e a percebemos.
Eu me troquei e aguardei na suíte. Logo o Rafael veio e falou
que eu seria transferida junto com uma outra gestante que estava na mesma situação que eu. Fomos na ambulância, eu, Athaide, minha mãe, a outra gestante, a mãe dela, mais 2 enfermeiras. Eu fui deitada na maca, segurando a mão do Athaide e com as contrações cada vez mais fortes. A outra gestante, a Diana, estava super bem, praticamente sem contrações.
Em menos de 10 minutos chegamos na Maternidade Alexander Fleming e fui prontamente atendida. A enfermeira fez minha ficha e logo a médica fez o exame de toque. Ela sorriu pra mim e disse:
"Parabéns! Seu bebê não vai demorar a nascer! Você está com 8cm de dilatação." Se as contrações tivessem me dado alguma trégua eu teria abraçado aquela médica! Que notícia maravilhosa!
Depois disso as contrações deixaram de ser "insuportáveis" e passaram a ser maravilhosas. Não que a dor tivesse desaparecido, mas é que nesse momento eu tive a certeza de que iria conseguir parir minha filha. E a cada contração eu voltei a sentí-la trabalhando junto comigo. Nossa sintonia foi refeita.
Eu fiquei esperando a Diana na recepção para que a enfermeira pudesse subir conosco juntas. O atendimento dela demorou um pouquinho mais e eu já não agüentava ficar mais deitada. Eu sentia meu corpo fazendo força pra baixo, sentia vontade de fazer
força e pedi minha mãe pra chamar a enfermeira, por que minha filha já ia nascer. Eu só repetia isso o tempo todo e o guarda que estava perto ficou meio assustado e chamou a enfermeira.
Mais uma vez eu não conseguia falar direito. Eu estava tão concentrada nas contrações que não conseguia me expressar direito eu sentia que a Flor não demorava a nascer e queria dizer isso pro Athaide. Ele não pôde entrar comigo, por que lá eles não permitem acompanhantes homens, somente mulheres.
Então eu olhei ele e só disse que estava ótima e que a Flor ia nascer. Ele me olhou com os olhos cheios d'água e balançou a cabeça. A enfermeira apareceu e nos levou para a sala de pré-parto. A vontade de fazer força era cada vez maior e eu pedi minha mãe pra chamar o médico. Ele veio, se apresentou como Dr. Marcio, perguntou meu nome e perguntou o que eu sentia. Quando falei pra ele que sentia vontade de fazer força, ele fez o exame de toque novamente e disse que eu estava com 9 de
dilatação e que eu deveria me deitar do lado esquerdo e quando a
contração viesse eu deveria puxar a perna direita de encontro ao peito e fazer força, como se fosse pra defecar. Ele ficou ali me observando e quando viu que eu estava trancando os dentes e fazendo barulho com a boca, ele disse que estava errado, que eu deveria inspirar profundamente e expirar lentamente fazendo força que assim estaria fazendo força corretamente e não me cansaria. E falou pra mim: "Carla, imagina uma corrida. Nós estamos numa corrida e a linha de chegada está bem próxima. Eu estou do seu lado e já consigo ver a linha de chegada. Você consegue vê-la? Vamos Carla! Você está quase chegando..." Eu só afirmei com a cabeça pra ele e essas palavras dele me deram fôlego novo.
Ele fechou as cortinas e ficamos só eu e minha mãe ali. Eu segurava a mão dela e apertava a cada contração. E como era bom
fazer força! Era um alívio tão grande! E eu sentia a Flor cada vez
mais próxima. Quando a contração vinha mais forte eu visualizava as ondas e cantava uma música que aprendi na igreja quando era criança: "Eu tenho um barco que navega sobre o mar e Jesus Cristo é o capitão..." ou então imaginava minha vagina como se fosse uma rosa branca se abrindo.
Durante minha gravidez inteira, sempre que pensava como
seria o expulsivo eu fechava os olhos e via uma rosa branca
desabrochando. No intervalo das contrações eu sempre colocava a mão na vagina pra saber como estava (não me perguntem o pq!). Minha mãe mandava eu tirar a mão e eu nem ligava, sempre repetia o gesto. Numa dessas vezes eu senti a cabecinha da Flor e falei pra minha mãe chamar o médico rápido pq a Flor ia nascer. O Dr. Marcio veio e durante a contração viu que era a Flor mesmo chegando e falou que iríamos pra sala de parto.
Fomos pra sala de parto e eu me deitei na mesa que se trasforma em cadeira de cócoras e as enfermeiras começaram a regular
pra vertical e ele disse que era só eu dizer quando elas deveriam
parar para que eu ficasse confortável. Eu fiquei deitada, mas bem
inclinada para frente. Ele perguntou qual era o sexo do meu bebê e eu disse que era uma menina. Ele disse: "É uma menina bem cabeluda! Qual o nome dela?" E eu disse que era Agnes. Ele disse que era um lindo nome e que agora que eu estava confortável naquela posição, estava na hora de ajudar a Agnes à nascer e falou que deveria fazer força quando a contração viesse. Eu fazia força e ele me incentivava: "Vamos Carla! Eu já estou vendo a Agnes e ela precisa de você!" E eu fazia força e respirava, e fazia força.
E então pedi que me levantassem um pouco mais. E quando fiquei quase de cócoras senti que a força que eu fazia era mais eficaz. Minha mãe estava do meu lado o tempo todo e ele a chamou pra ver como a cabecinha girava pra coroar. Então ele pediu pra eu fazer força, mas devagar, pra evitar laceração, por que a cabeça já estava pra coroar. Eu fiz como ele indicou e no meio da força, quando eu pensei em parar, ele me incentivava mais: "Agora
Carla, continua um pouquinho mais! A Agnes está doida pra ir para os seus braços, vamos!" E eu senti uma queimação e a cabecinha dela sair.
Nessa hora eu parei um pouco pra respirar, por que me sentia cansada e ele falou: "Isso, descansa... não precisa ter pressa. Falta
pouquinho e a Agnes estará aí com você." Veio outra contração e eu fiz força e senti passando um lado do ombrinho dela e depois o outro e ela saindo totalmente. Ouvi o chorinho dela, ou melhor, chorinho não... uma sirene! Por que quando a Flor chora de verdade parece mais uma sirene. Ele colocou logo ela em cima de mim e a senti quentinha, quentinha... Mas pedi que tirassem ela, por que eu não tinha força pra fazer nada. Eu me sentia dopada. Era como se tivesse acabado de ter um orgasmo gigantesco. Pode parecer estranho, mas foi assim que me senti, entorpecida.
Depois de bater os olhos nela e me apaixonar ainda mais me lembrei da placenta e perguntei ao médico se ele iria aguardar ela sair naturalmente e ele disse que sim. Perguntei se iria doer e ele falou que não, que eu fui muito bem e que eu deveria ficar tranqüila.
A pediatra a pegou e a examinou do meu lado. Disse que ela era linda, que era uma boneca de 49cm e 3,400kg e o apgar foi 9 e 10 e com o choro dela eu podia ter certeza que o pulmão dela era maravilhoso! Me deu os parabéns e a colocou de volta em cima de mim. E eu e minha mãe ficamos admirando aquela bonequinha linda. Ela me olhava como se quisesse ler meus pensamentos. O mesmo olhar profundo que ela tem até hoje quando está mamando.
(continua no post abaixo!!)
Patrícia Merlin
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Ela me olhava e colocava a lingüinha pra fora e eu perguntei se eles tinham dado algum medicamento oral pra ela e ela falou que não, que ela queria era mamar mesmo. E o Dr. Marcio falou que eu deveria eu amamentá-la logo, mas a enfermeira falou que eu não podia, por que o exame de HIV que eu fiz não tinha dado o resultado ainda. Eu fiquei triste, mas entendi. Uns 5 minutos depois a placenta saiu e ele falou que eu tive uma pequena laceração e que daria 2 pontinhos e aplicaria uma anestesia local que me faria sentir uma picadinha.
Continuei segurando minha Florzinha e senti a picadinha, senti ele dar os pontos, mas não senti dor nenhuma. Olhar praquele milagre de Deus, pro meu Pedacinho do Céu era indescritível! Fiquei com ela mais um tempinho, minha mãe a pegou e depois eles a levaram para dar banho.
Ela nasceu às 11:45hs da manhã do dia 06 de Agosto. Dia do
aniversário de 73 anos da bisavó dela: D. Nathércia que pediu tanto a Deus que a neta nascesse nesse dia que Deus lhe concedeu essa benção.
Depois do parto ficou só eu e minha mãe conversando e eu perguntei a ela várias e várias vezes: "Eu consegui mãe?" E ela me respondia com olhos cheios de água, segurando minha mão que sim, que eu tinha conseguido. A ficha demorou pra cair! E como demorou!
Quando já estava na enfermaria, finalmente o resultado do HIV saiu e eu pude finalmente amamentar minha bezerrinha. Que sensação divina sentir que o leite produzido em nosso corpo alimenta nossos filhos!
O parto foi maravilhoso! Natural como eu sempre quis! Nada de
tricotomia, lavagem intestinal, episiotomia ou ocitocina. Apesar de
eu ter desejado todo o tempo ter a Agnes na Casa de Parto, não posso me queixar da equipe que me acompanhou na maternidade. Foi uma equipe preparada por Deus, por que eu sei que no SUS infelizmente nem todas tem a oportunidade de ser tão bem atendida como eu fui, sendo respeitada e tendo um parto humanizado.
A sensação de sentir a Agnes abrindo caminho pra nascer, sentí-la
coroar e depois saindo completamente é indescritível! Eu nunca
conseguirei descrever tudo que senti e vivi nesses momentos. Eu me senti abençoada, agradecida a Deus pela oportunidade de ter trabalhado junto com a Agnes para que o nascimento dela fosse o mais natural e humano possível para as condições apresentadas. Não posso dizer que tudo foi perfeito pq não foi. Digo isso por que senti muito a falta do Athaide. Queria muito que ele tivesse assistido o nascimento da filha dele. Tenho certeza que esse seria um momento inesquecível pra ele e infelizmente, apesar de ser lei, esse direito nos foi podado. Além disso, sem que eu tivesse direito de escolha, minha filha foi vacinada contra a Hepatite B assim que nasceu, recebeu Vitamina K e Colírio de Nitrato de Prata e ainda tomou leite Nan, já que não pude amamentá-la imediatamente. Isso tudo poderia ter sido evitado, mas num hospital eu sei que é tarefa quase impossível.
Quanto à Casa de Parto eu vou voltar lá levando uma carta de
agradecimento a todos pelo belo trabalho que desenvolvem. Se eu
estava tão bem preparada agradeço muito a eles por todo o
acompanhamento que me proporcionaram. São profissionais maravilhosos que apesar de terem de provar todos os dias que não são incompetentes nem malucos, estão cada vez mais fortes e decididos em continuar. É muito bom saber que em breve o Rio não contará somente com a Casa de Parto de Realengo, mas também com outra que em breve será inaugurada. Este projeto vai ter sempre todo o meu apoio e respeito.
Patrícia Merlin
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Relato nº 5
Depois de ir a um casamento no domingo, onde todo mundo ficou me cobrando e me secando, afinal de contas eu já tinha passado das tais 40 semanas, resolvi que na segunda ia dar uma mãozinha pra ver se minha filha resolvia finalmente dar as caras.
Acordei cedo no dia quatro, peguei um dos meus sobrinhos que estava aqui em casa e fomos dar uma bela caminhada pela praia. Fui lá na areia, com a água batendo nos pés, e andamos bastante enquanto eu me despedia do barrigão e contava pra minha filha as maravilhas que a aguardavam aqui do lado de fora.
Quando cheguei em casa, ainda completei com uma banheira bem quentinha e fiquei relaxando lá dentro, quase com a certeza de que a Júlia não iria demorar.
À noite, vendo tv na sala com o Théo, senti como que se o xixi tivesse escapado e tava tão distraída que ainda soltei: ¿só me falta estar com incontinência urinária agora!¿. Aquilo ainda se repetiu umas outras vezes, até que eu me toquei que poderia ser um rompimento da bolsa. Caramba! Era o que eu mais temia a gravidez toda... Mas ainda tava na dúvida, afinal de contas o líquido jorrava quando a bolsa rompia, certo? E comigo só saía um pouquinho, molhava a calcinha e tal.
Certifiquei-me de que o líquido estava transparente, coloquei um absorvente e fui dormir.
No dia seguinte, assim que acordei e fui ao banheiro, constatei que o tampão estava saindo. Já tinha saído um pouco, uma semana antes, mas como eu tinha ficado eufórica e nada tinha acontecido, achei que seria mais um alarme falso.
Liguei só no dia seguinte, às 8h30 pro Xico (obstetra) pra falar da saída do líquido e ele me falou pra colocar um absorvente, coisa que eu já tinha feito. Fiquei vendo tv... E de repente sinto uma dor. Uma cólica fortezinha, uma necessidade de sair daquela posição, de levantar. Resolvi rebolar, fazer uns exercícios da yoga, não sabia se aquilo ia progredir.
Vim pro computador, falei pelo MSN com a Ingrid que naquela hora, ainda era minha doula titular, já que a Fadinha (minha doula oficial e profa. de yoga) estava no congresso da Naoli (Vinaver ¿ parteira mexicana). Quando terminei de falar com a Ingrid, umas 10 da manhã, me liga a Wal, secretária da Fadinha, avisando que ela estava chegando. Eu queria falar pra Wal que tinha sentido alguma coisa, assim ela passava o recado pra Fadinha ficar alerta, mas minha cunhada tava do meu lado e não queria falar pra mais ninguém que eu tava na suspeita, pra evitar cobranças.
Voltei pro quarto e mais ou menos uma hora depois senti outra dor: fiz a mesma coisa, bastante rebolado, acocorei, a dor ficava mais forte, mas depois passava. De repente eu percebi que existia um ritmo, que ela ia e voltava. E, quando me dei conta, já era uma dor imensa e sem intervalos pra respirar...
Não lembro ao certo, mas acho que liguei pra Fadinha pra avisar que ¿alguma coisa estava acontecendo¿, era terça feira, dia de aula dela, então achei melhor deixá-la de sobreaviso. Cheguei a pedir pro Théo cronometrar, mas eu não tinha intervalos certos. Acredito que depois de 13h a dor realmente ficou bastante forte e eu pedi que ele ligasse pro Xico. Até hoje não sei direito o que eles falaram no telefone, mas eu já tava meio desesperada, no chão do banheiro e com muita dor e o Théo me disse pra ir pro chuveiro. Foi maravilhoso.
Não faço a menor idéia de quanto tempo fiquei naquele chuveiro, deixei a água bater e quando a dor vinha forte me segurava na janela que tem em cima e berrava horrores. Minha cunhada depois me contou o horror de ver só os meus dedinhos ali do lado de fora e ouvir aqueles berros... Eu nem sonhava que tinha gente na minha casa, senão eu tinha tido um treco.
O Théo ligou pra Fadinha e pediu que ela viesse com urgência. Acho que ela chegou por volta das 14h e imediatamente me mandou pra banheira. Fiquei com receio de ir pra banheira, eu não sabia quanto tinha de dilatação, mas confiei na experiência da Fadinha. É claro que foi ótimo. Eu fiquei dentro da banheira com o chuveiro ligado e a água batendo na minha barriga. A Fadinha entoou uns mantras maravilhosos, eu fechava os olhos e recorri a um mordedor que tinha ganhado pro bebê... Nossa, como eu mordi aquele negócio.
Eu tava feliz porque a hora tava chegando, mas não conseguia curtir nada daquilo por não ter um intervalo pra descansar. Lembro-me de falar o tempo todo ¿puxa, mas se pelo menos eu tivesse um intervalo...¿. A Fadinha me disse que era assim mesmo e que eu procurasse relaxar. Pediu-me pra tentar ficar em outras posições, mas a dor me impedia de fazer muitas coisas. O Théo entrava e saía do banheiro o tempo todo pedindo pra gente ir logo pra Perinatal. Eu tava com muita dor, mas queria saber quanto tinha de dilatação. Vai que ainda tava no começo... Eu não queria correr o risco de chegar lá e ainda faltar muito tempo, acabar em cesárea, etc. Além disso, eu não via nenhuma possibilidade de sair daquela banheira.
A dor era insuportável, tive que fechar os olhos, tomar muita coragem, levantar e disse: ¿vamos agora, se não eu não saio mais¿. Lembro que a Fadinha colocou uma bolsa de água quente nas minhas costas, aquilo não ficava preso de jeito nenhum e eu comecei a ficar nervosa. Tinha que colocar uma roupa e não conseguia me secar, saí de casa completamente molhada, com a roupa grudada no corpo e havaianas. Depois me toquei que eram 17h e nós pegaríamos o Rebouças. Eu não ia agüentar se tivesse trânsito. E foi um milagre... Entre furadas de trânsitos, ruas milagrosamente vazias e pegadas de contra-mão na R. das Laranjeiras, estávamos lá em 10 minutos.
O Xico já tinha chegado e feito a pré-internação pra mim, o que foi maravilhoso. Cheguei com aquela cara horrível e ele foi logo me dizendo pra abrir os olhos, pra dor poder sair. E eu lá conseguia?
Fomos direto pra sala de parto humanizado, a que eu tinha visitado. Lembro da subida no elevador, dele conversando com um menino surdo que carregava as malas, mas isso tudo parece uma névoa na minha cabeça, eu tava surtada de tanta dor. Quando eu deitei na cama o Xico veio logo ver a dilatação e disse que eu tava com quase nove. Foi maravilhoso...Nossa, meu maior medo era chegar lá e ele dizer que eu tava com um ou 2 ¿ acho que eu teria um treco.
Lembro que o Xico me apresentou o Geraldo, anestesista e eu já fui com minha grosseria peculiar dizendo que eu o chamaria se precisasse dele. O fato é que eu fiquei na dúvida se conseguiria agüentar mais ou se pedia arrêgo. Sim, porque depois de tudo o que eu li, vi, ouvi, pedir anestesia era um pedido de arrêgo. Por fim resolvi chamar o Geraldo de volta.
Percebi que eu queria vomitar aquele bebê a qualquer custo pra acabar com a minha dor e não era esse o meu plano de parto. Eu sonhei em curtir aquele momento, eu tava fazendo aquilo tudo pela minha filha, porque eu sei que é o melhor pra ela, quem era eu pra estragar tudo no final?
Quando me decidi pela anestesia queria que fosse num passe de mágica. Nossa, como demoroooooooooooou, vira de costas, fica paradinha (impossível!), bota agulha, bota fita, o Geraldo fazendo questão de explicar tudo e eu já tava pra lá de Bagdá.
Lembro que pedi desculpas pra Fadinha por estar pedindo a analgesia e ela mesmo me mostrou como era uma bobagem aquilo que eu falava. Caramba, o parto era meu! Eu tinha lá que dar satisfações pra alguém das minhas escolhas?
Tudo bem! É muito gratificante fazer tudo naturalmente, e depois a gente sai com um ar de ¿fodona¿, ¿não precisei de anestesia¿ e tal, mas...Eu precisei! E, mesmo se eu não tivesse precisado, eu quis, caramba! E foi maravilhoooooooooso.
Depois que a anestesia fez efeito, lembro do Xico falando ¿Ah, essa é a Bianca que eu conheço!¿, sim, porque eu tinha me recuperado. Voltei a sorrir, a tomar consciência do momento, a realizar a beleza e a perfeição de tudo o que acontecia. Fiquei com medo da anestesia me deixar grogue, mas que nada. Alguns minutos depois e eu tava de pé, fazendo exercícios com a Fadinha com um apetrecho que ela acabara de trazer do México.
Usei a bola e não quis a banqueta de cócoras, porque achei muito baixinha. Escolhi a música, fiz piada e comecei a me dar conta de que mais alguns minutos e minha filha estaria nos meus braços. Aos poucos a dor voltava, eu sentia as contrações novamente e uma vontade de fazer força. Eles montaram a barra que me permitia ficar de cócoras e eu comecei a treinar. Eu tinha um medo muito grande de não conseguir ficar muito tempo ali por causa do meu peso. Que o peso nas pernas pudesse me atrapalhar na hora de fazer força, mas isso não aconteceu.
A contração vinha e eu me apoiava na barra pra fazer força. O Xico colocava a mão lá dentro e dizia algumas palavras de encorajamento. Acho que nesse momento a Fadinha tava filmando... Eu não me lembro direito, devo dizer. Preciso ver o vídeo, agora que já tenho coragem.
Sei que gritei muito, tentei manter o queixo colado no peito e tentei gritar da maneira que o Xico me ensinou. Acho que não consegui, mas o importante é que depois de umas quatro forças, minha filha tava ali.
Caramba, eu senti exatamente o tal círculo de fogo. Começou a arder tudo e parecia que ia pegar fogo. E, rapidamente eu pensei: é agora! E quando olhei pra baixo, tava ela ali! Foi inacreditável... Como é que uma coisa daquela sai de dentro da gente? A gente passa tantos meses convivendo, pensando, imaginando, mas ainda assim não dá pra acreditar. Era a minha filha, a minha Júlia, toda rosinha, toda linda. Minha filha nasceu limpa...Sem vérnix, sem nada. Foi colocada no meu colo e desse momento eu nunca vou me esquecer.
Ficamos namorando um bom tempo e a pediatra foi ótima ¿ ficou só observando e não interviu em momento algum. Um tempão depois o Xico ofereceu o cordão pro Théo cortar (quando o cordão já havia parado de pulsar) e, contrariando todas as expectativas, ele cortou. Não queria deixar eles saírem pro berçário, mas enfim, tinha que sair a placenta, dar os pontos e ela tinha que ser pesada e medida.
O Théo foi então com a Júlia e a pediatra pro berçário. Acho que o Xico mexeu um pouco e a placenta foi expulsa ¿ achei uma delícia. Depois ficou um tempo dando os pontos na laceração (não sofri episiotomia, meu maior medo!), não sei quantos pontos foram, lembro que eu reclamava um pouco quando ele puxava a linha, mas não era nada (não perto da dor de antes...).
Quando terminamos veio uma enfermeira me limpar e depois fiquei no corredor esperando uma eternidade até me levarem pro quarto. Lembro que o Xico e o Geraldo insistiram com a enfermeira se podiam me levar eles mesmos, mas ela não deixou. Fiquei deitada com as câmeras em cima da minha barriga vendo as fotos e a filmagem enquanto não chegavam pra me levar. Como estávamos demorando, ainda pedi pro Geraldo o celular dele emprestado pra dar uma ligadinha pro Théo e lembrar a ele pra não deixar a Júlia sozinha em nenhum momento, senão podiam enfiar a garota na incubadora.
No fim das contas minha filha não sofreu nenhuma intervenção, como eu havia pedido (a não ser a vitamina K que a pediatra não abria mão, mas ela realmente não sofreu na aplicação).
Ela nasceu às 19h44, com 3.240gr, 47,5cm, apgar 10/10. Às 21h30 consegui chegar no quarto e às 23h eu tava tomando meu banho...Sozinha! No dia seguinte tivemos alta e ainda fiquei no hospital até o fim do dia pra dar tempo de receber algumas visitas. A recuperação foi ótima. Os pontos não doeram nadinha, passei o spray e a pomada de arnica conforme recomendado, mas aquilo incomodou muito pouco.
Enfim, assim foi o parto da Júlia, o parto dos meus sonhos.
Agradeço a mim mesma, pela capacidade de me informar, correr atrás, ter coragem de fazer diferente e de peitar aqueles que duvidaram.
Agradeço ao Théo por ter me apoiado nas decisões, principalmente na troca de obstetra. Agradeço ao Xico por ser a pessoa que é, por me fazer acreditar que meu peso não impediria o parto dos meus sonhos.
Agradeço à minha irmã Danielle por ter me apresentado às listas de discussão na internet. Agradeço às meninas das listas ¿Parto Nosso¿ e ¿Mães Empoderadas¿ por compartilharem informações valiosíssimas.
Agradeço à Fadinha pela preparação e acompanhamento e ao Geraldo por ter dado a anestesia de maneira perfeita.
Agradeço a Deus pela realização do sonho de ter minha filha aqui comigo e que ela seja a primeira de uma linda família.
Patrícia Merlin
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Relato nº 4
30 de abril de 2003, uma quarta feira muito bonita de primavera, em Portland, OR, EUA.
Eu e Ole bem ansiosos, afinal de contas a data prevista para chegada do Lucas já tinha passado vários dias!
Fomos para a última consulta de rotina com o GO, Dr. Ono e ele viu que apesar de alguns centímetros de dilatação, não havia nem sinal de trabalho de parto vindo. Nos explicou que estava tudo bem apesar das quase 41 semanas de gravidez e podíamos esperar mais, porém ele estava saindo de férias na semana próxima, então nos ofereceu a opção de induzir o parto daqui a 3 dias, um sábado.
Nossa, que decisão difícil de tomar!
Por um lado parecia que seria um alívio que o Lucas viesse e na presença do Dr. Ono que sempre foi muito atencioso em todas as consultas, muito falante, explicava tudo e sempre disposto a discussões (eu com minhas listas enormes de dúvidas). Um médico que certamente encoraja o parto normal e queria muito que isso acontecesse (nos EUA médicos cesaristas não são a norma).
Bem, depois de pensar um pouco decidimos aceitar a indução, pois assim ele nos acompanharia, ao passo de que se esperassemos mais uma semana teriamos a chance do Lucas nascer com um medico desconhecido nosso. O fator psicológico conta demais nesse momento tão importante de nossas vidas, onde não tínhamos nenhum amigo ou parente por perto e tinhamos no Dr. Ono uma pessoa amiga e que aprendemos a confiar ao longo desses 9 meses. Bom, decidimos e marcamos a indução para o sábado, que seria dia 3 de maio de 2003.
Depois da consulta fomos almoçar, eu um tanto confusa quanto a essa decisão. Pensamos juntos e ficamos tranquilos, pois poderiamos cancelar a indução a qualquer momento. E fomos para casa descansar, eu com um barrigão enorme e bem pesado!
De noite após o jantar as contrações vieram, bem fracas no inicio, ainda achei que eram somente Braxton, mas elas persistiram! Ah, parece que o Lucas tinha adivinhado que marcamos a indução, mas quis vir quando ELE decidiu, menino esperto hein? No fim fiquei muito feliz porque veio na hora certa e indução não foi necessaria.
As contrações não estava muito fortes e doidas, mas por volta das 10 da noite começaram ficar muito constantes. Ligamos para o consultorio obstetrico e a medica de plantão nos disse para ir ao hospital. Ah, que emocão, uma hora tão esperada, estava para acontecer finalmente!
Tomei um banho rápido, pegamos nossa malinha já toda arrumada e rumo ao hospital que já tinhamos visitado inclusive.
Chegando lá fizeram a prova do toque e viram que não tinha dilatado muito mais do que já estava, ou seja, 3 cm. E e como eu não parecia estar com muita dor, queriam me mandar de volta para casa. Mas para garantir pediram que eu ficasse numa sala de triagem para monitorar o progresso das coisas por algum tempo antes de nos mandarem de volta. E foi lá nessa sala que o trabalho de parto comecou com força total! Primeiro veio uma diarréia muito chata e constante, junto com as contrações, não foi nada agradavel. E a dor comecou a aumentar muito e mais um pouco e mais. Comecei a precisar de ajuda do Ole para suportar, então ele me abraçava e tentava fazer massagem em minhas costas e seguir algumas dicas que tinhamos praticado do livro Lamaze (Preparation for Birth : The Complete Guide to the Lamaze Method by Beverly Savage, Diana Simkin).
Por volta de 1 da manhã outro medico veio verificar o progresso quando decidiram que eu poderia ser admitida mesmo no hospital. Ufa! Assim fomos para a sala que seria nossa e coloquei aquela roupinha linda de hospital.
A partir daí me lembro de ter perdido totalmente noção do tempo e já me sentia muito cansada, afinal o trabalho de parto começou bem na hora que eu iria para cama dormir.
E eu andando para lá para cá, tentando achar uma posição para quando as contrações viessem, quando nos tocamos que esquecemos em casa a bola suiça que compramos para ver se ajudava nisso. Optamos por não ter uma doula, apesar de reconhecer sua finalidade muito nobre e útil, mas como não tinhamos amigos aqui para mim seria como uma estranha a mais no meio daquele emaranhado de emoções e sabia que podia contar com o Ole para me doular. Aliás, ele foi maravilhoso em tudo!
Me ligaram nos monitores, fetais e de contrações, mas eu não queria ficar parada naquela cama, pois andar e ficar de cócoras aliviava um pouco da dor e fazendo as respirações do Lamaze, que na hora esqueci tudo e somente o Ole para me lembrar e me ensinar novamente.
Quando chegou na fase de uma contração a cada cinco minutos (isso já estava quase amanhecendo), não conseguia mais suportar. Como tinha escrito no meu plano de parto que poderia me oferecer uma epidural, a anestesista veio oferecer.
Eu tinha sentimentos muito confusos quanto a analgesia, por um lado queria resistir a qualquer custo, mas por outro reconhecia que o ser humano tem limitações e senti que estava no meu limite, doendo demais mesmo. Nessa hora eu já devia estar com quase 8 centímetros e me lembrei de uma última discussão com Dr. Ono, onde eu perguntei sobre a epidural. O medo que eu tinha que a epidural poderia retardar o trabalho de parto tinha mais probabilidade de acontecer se administrada no comecinho, com poucos centrimetros de dilatacão, mas já assim na quase reta final, era menos provável.
Ainda relutei bastante quando a anestesista, veio, tentei perguntar, argumentar, ela deve ter me achado uma gringa louca..risos..
Bom, a enfermeira me perguntou como estava minha dor numa escala de 0-10 e minha resposta foi 9! Realmente não conseguiria aguentar muito mais, então fomos em frente.
Foi dificil para a anestesista aplicar, pois as contrações estavam intensas e eu tinha que ficar paradinha, quieta! Assim entre uma contração e outra me esforcei para não me mexer e na segunda tentativa deu certo. Foi um alívio imenso, que não sei nem descrever!
Foi então que deitei um pouco e relaxei, mas como a essas alturas já estava com o monitor de batidas do coração do Lucas e de contraçoes o tempo todo (antes o monitoramento era intermitente porque insisti, bem que quiseram que fosse constante) e pude observar na telinha cada contração que vinha, mas sem dor! Incrível!
Ole deitou um pouquinho também nessa hora e ambos relaxamos enquanto a natureza fazia seu trabalho, preparando para o Lucas chegar, mas não dormi, somente descansei um pouco.
Por volta da hora do almoço, Ole foi pegar alguma coisa para comer na cantina do hospital. Assim que ele saiu algo estranho aconteceu, pois as batidas do coração do Lucas começaram a diminuir rapidamente e chamaram uma médica de emergência que me colocou de cócoras (coisa que foi bem difícil por causa da epidural) e me assustou muito dizendo que podia fazer uma cesárea as pressas para salvar o bebê!! Ai, meu Deus!!
Bom, foi eu ficar de cócoras as batidas retornaram ao normal, o Lucas tinha que dar uma mexidinha lá, tadinho, estava desconfortável e chamaram o Ole pelo interfone do hospital, chegou correndo, nem comeu nada!
Depois desse susto, tudo voltou ao normal e o Ole finalmente conseguiu comer algo.
Dr. Ono já estava a caminho. Outro obstetra que eu já conhecia da clínica também veio e decidiu romper a bolsa d'água artificialmente já que tudo indicava que estava próximo. A essas alturas nem ligava mais para quem entrava, saia, mexia, já tinha passado há muito tempo a fase do pudor.
Pouco antes do meio dia Dr. Ono chegou e nem deu tempo de muita coisa quando ele verificou que era hora de empurrar: 10 centímetros! Incrivel!
Ele me orientou a empurrar cada vez que ele pedisse, conforme a contração vinha. Coloquei todas minhas forças naquele trabalho, o mais importante que jamais tinha realizado em minha vida, o expulsivo.
A cada contração que vinha ele pedia: Push! Eu não consegui empurrar todas as vezes, mas tudo bem, na próxima tentava com forca total, com uma barra de ferro e o Ole servindo de apoio. E ganhei também uma episiotomia nessa hora, meio a contra-gosto, ainda tentei argumentar se não era possivel evitar, mas ele foi enfático que ajudaria e parece ter ajudado mesmo.
Ele colocou um espelho para que eu pudesse ver a cabecinha coroando! As palavras dele: não é loiro! Ahahah, vê se pode? Quem diria que aos 6 meses de idade seu cabelinho, até então escuro, iria se tornar dourado?
Exatamente as 12:27 h Lucas nasceu! Meia hora de empurrões, Dr. Ono ficou impressionado por ser primeiro filho! Foram cerca de 14 horas de trabalho de parto.
Na hora do nascimento as luzes foram diminuidas e assim que o Lucas nasceu. Dr. Ono aspirou as secreções gástricas, limpou um pouquinho (já não tinha quase vernix por causa do pós-datismo) e veio imediatamente para cima da minha barriga, esse momento é inesquecível!
Ele estava tão alerta! Olhava para cima, para os lados e principalmente para meus olhos. Eu e Ole admirando aquela criaturinha tão perfeita que Deus nos deu! Dr. Ono ofereceu para que o Ole cortasse o cordão e ele meio relutante o fez, porque afinal é trabalho do pai, disse Dr. Ono!
Enquanto admirávamos o Lucas a placenta saiu e recebi os pontos na episiotomia. Já ofereci meu peito e ele mamou um pouquinho no peito esquerdo, aí foram medi-lo, limpá-lo e os outros procedimentos padrão, porém tudo na minha frente.
Fomos transferidos para outro quarto e já estava me sentindo ótima! Para desespero da enfermeira levantei e fui ao banheiro sem pedir autorização. Estava com muita fome, afinal não tinha comido nada desde a noite passada, mas quando fui comer vomitei tudo (um pouco em cima do Lucas, tadinho!!) porque ainda tinha o resto do efeito da anestesia.
Ficamos a tarde toda curtindo nosso bebê e tentando amamentar. Tenho muito a agradecer as conselheiras da La Leche League que deram uma ajuda essencial nesse dia e no dia seguinte, para que eu conseguisse amamentar com sucesso. Tivemos muitos obstáculos por causa de uma mamoplastia realizada ha um tempo atras, mas gracas a Deus tudo foi superado.
No final da tarde o Ole pediu para ir para casa porque ele estava exausto e eu cheia de energia! Rsss...esses homens, né?
1o. de maio de 2003, 12:27 h: Lucas nasceu!
Foi o sentimento mais profundo, mais bonito do mundo, meu pequeno bebê em meus braços!!
Ele se parece com o Ole, mas tem os cabelos como os meus. É lindo!! Esqueci das muitas horas de trabalho de parto imediatamente! Dei de mamar rapidinho, entao fomos para o quarto de recuperação.
O Ole está exausto, falei para ele ir pra casa dormir, pois veio uma energia inesperada em mim, só queria cuidar do Lucas. Ele chorou bastante, pedi para enfermeira ficar com ele um pouquinho durante a noite, ele é um bom menino.
No dia seguinte fiquei chorosa e emocionada, principalmente depois de conversar com Dr. Ono e cair em si que agora somos nós, o bebê e Deus para nos ajudar.
Fomos para casa, fui chorando no caminho, tanta incerteza, insegurança, um bebê tão novinho, nós sózinhos, mas Ole como sempre tão bom, palavras encorajadoras, ele é um presente de Deus e eu o amo muito. Nós vamos cuidar e do Luquinha e amá-lo muito, juntos!
E assim começam
As aventuras do Lucas Mortensen.
Patrícia Merlin
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Relato nº 3
Sempre sonhei com o parto normal, às vezes queria ter meu filho como uma índia, na beira de um rio, acocorada... Quando era criança, brincava com minhas bonecas colocando-as embaixo da blusa, desfilando meu ¿barrigão¿. Engraçado... nunca sonhei em me casar, véu, grinalda, festa, aliás detesto ir em casamentos. Mas com filhos... sempre foi um sonho muito bom! Não que uma coisa tenha a ver necessariamente com outra, pelo menos não pra mim.
O primeiro médico q eu fui era meu ginecologista, mas como eu nunca tive nenhum problema, eu só ia nele uma vez por ano fazer o preventivo. Quando descobri q estava grávida, fui nele e na primeira consulta ele começou a fumar comigo dentro do consultório!!! Lógico q não voltei mais nele! Troquei de médico! Como ela tinha sido super bem indicada por uma amiga e eu não conhecia nenhum outro médico, continuei meu pré natal com ela e pensando: na hora eu fico de cócoras mesmo ela não querendo, ela vai ter que dar o jeito dela. Deu pra perceber como eu era ingênua pra não dizer uma paquiderme!!!!
Bom, pra mim essa parte do parto estava resolvida, não pensava muito nisso, até por medo do desconhecido mesmo, eu tinha um pouco de medo da dor, mas pensava que se tem tanta gente no mundo, sinal que não é uma dor insuportável. Na minha cabeça ia ser parto normal e pronto!
Bem, eram por volta de onze horas da noite quando eu fui me deitar e, quando me virei de lado, senti um PLOC e desceu aquela aguaceira, levei um susto tremendo, não sentia dor nenhuma, nenhuma contração, nada. Havia dias que eu estava sentindo dores na lombar e umas fisgadas bem embaixo, como se fosse por dentro da vagina. Mas como faltavam dez dias pra quarenta semanas...
Bem, a bolsa estourou e eu fiquei apavorada, corri pro hospital, eu, meu marido e minha mãe (nós morávamos na casa dela na época). Tentamos ligar pra minha médica, mas não conseguimos, quando chegamos no hospital eles entraram em contato com ela.
Fizeram a internação e eu apavorada me perguntando como que a recepcionista ficava me fazendo tanta pergunta, me pedindo pra assinar o cheque caução, etc, etc, etc e eu ali em pleno trabalho de parto!!!!!!
Me levaram pra uma salinha e veio uma enfermeira com uma cara de que estava de mal com o mundo e me fez o exame de toque, o q diga-se de passagem, foi uma das piores experiências da minha vida!!! Ela foi de uma brutalidade!!!! Doeu MUITO. O Felipe (meu marido) estava na sala comigo e ficou assustado com a brutalidade dela. Eu perguntei se estava com dilatação e ela me disse q eu estava com um centímetro. Me levaram pra uma suíte chiquérrima pq o andar onde ficava a maternidade estava lotado. Logo depois chegou a minha médica que, sem nem ao menos tocar em mim, disse q teria q ser cesária pq a criança ia entrar em sofrimento! Eu ainda perguntei pra ela se não podíamos esperar um pouco, pra ver se eu tinha dilatação, se começavam as contrações, mas ela disse q se eu queria correr o risco.... Que eu estava perdendo água e q isso faz o bebê entrar em sofrimento, que a gente não podia esperar, eu perguntei se ela não ia me examinar mas ela disse q não precisava.
Bem, minha médica ainda estava me dizendo isso, quando veio a enfermeira fazer a tricotomia, (horrível tb), fui até o banheiro, joguei uma ducha apenas nas pernas e voltei pra cama pra tal da tricotomia, minha Ex-médica dizendo q ia ficar óóóóótima a cicatriz, q não ia nem aparecer quando eu usasse biquíni!!!! Eu mereço....
Pus a camisola ridícula, veio a maca, e eu subi, com todo mundo, inclusive o enfermeiro que conduzia a maca vendo a minha bunda! Tudo bem que eu só pensava que algo podia acontecer com a minha filha, que ela podia entrar em sofrimento (pelo menos segundo a médica), mas foi degradante.
Entramos no centro cirúrgico, uma sala fria, verde, horrível, eu? APAVORADA! De novo, não com a cirurgia, apesar de detestar a idéia de ser cortada, ( NUNCA tinha passado por uma cirurgia antes), mas com a possibilidade de minha bebê não estar bem. Eu só queria que tudo aquilo acabasse logo e que eu pudesse pegar minha filha nos braços.
Levaram o Felipe pra uma outra sala pra que ele colocasse as roupas do centro cirúrgico e deixaram ele lá mofando... só o chamaram quando já estavam me cortando.
Eu fiquei jogada na maca, olhando pro teto, rezando, pedindo a Deus que minha filha estivesse bem e ficava cutucando a barriga pra sentir a Ila mexer, só assim conseguia me acalmar um pouco. As pessoas dentro do centro cirúrgico conversando, falando bobagens, comentando do programa de televisão, falando no celular... eu me sentia uma peça do centro, um pedaço de carne jogado no meio do nada...
De vez em quando entrava alguém, chegava perto de mim, despenteava minha franja, (me senti um cachorro sendo afagado nessas horas e não de uma forma boa) e diziam: -Oi mãezinha e eu pensava quase exteriorizando meu pensamento: -MÃEZINHA É O C...............O! Minha filha tá entrando em sofrimento e vcs aí discutindo a novela!!!!
Alguém da equipe começa a me fazer um monte de perguntas, tipo se eu era diabética, se tinha tido algum problema durante a gravidez e olhava meus exames. (é, eu tinha levado a minha pastinha com todos os exames de pré-natal e não sei como foi parar na mão dessa pessoa).
Como fundo musical o som dos instrumentos sendo arrumados naqueles carrinhos, bandejas, tudo foi arrumado comigo dentro do centro cirúrgico, não sei se é a prática certa, mas que é horrível ficar ouvindo aquilo, ah isso é!
Minha Ex- médica chega, discutindo no celular com a filha que estava num show sei lá aonde e eu pergunto pra ela o pq que tudo aquilo estava acontecendo, se eu tinha feito algo errado, se era pq eu tinha cismado de varrer o tapete da sala naquela tarde, pq queria que a casa estivesse limpa quando minha filha chegasse... E ela dizia que não, que isso acontecia e não se sabia o pq....
Veio o anestesista, e eu fiquei de lado com a bundona e as partes adjacentes toda de fora, com toda aquela equipe (não sei pra q tanta gente e ainda por cima ficavam entrando e saindo) vendo tudo e mais um pouco....
O anestesista me explicou que ia me dar a anestesia ráqui/peridural (não me lembro qual foi agora, mas é a que a gente não sente nada da cintura pra baixo) pq eu estava muito ansiosa então era melhor que eu não sentisse mexendo em mim. Isso eu agradeço a Deus, eu queria sentir minha filha NASCENDO de mim, pelos meios normais e não sendo arrancada de mim. O efeito foi muito rápido, não sentia mais as pernas e é uma sensação terrível. Não fazia idéia de onde elas estavam, como estavam...
Uma mulher passou um líquido vermelho na minha barriga, mercúrio, sei lá, e eu metia a mão em cima pra poder cutucar a Ila até ela mexer, vinha a mulher de novo, e falava que não podia passar a mão, pq ela já tinha esterilizado. Eu respondia: -tá bom, ela virava as costas e lá ia eu cutucar a Ila de novo... Ela teve que esterilizar várias vezes....
Eu estava lá deitada de braços abertos, aquele soro horrível entrando na veia, o anestesista de vez em quando aplicava alguma coisa. O Felipe entra na sala e fica ao meu lado, eu pergunto pra ele se já começaram a me cortar e ele diz q sim. Que coisa estranha, eu falando com a barriga aberta!
De repente eu começo a tremer, MUITO, MUITO MESMO!!! Algo totalmente sem controle!!!! Parecia que eu estava tomando um choque! Olho assustada pro anestesista, que por incrível que pareça foi a pessoa que mais me deu atenção durante a cirurgia, e ele diz que é normal, que é só uma reação à anestesia!!! Aplica mais um treco na minha veia e o tremor vai diminuindo. Daí é o meu nariz que entope, falo pro anestesista e ele pinga um líquido no meu nariz e me põe a máscara de oxigênio. Completamente apavorada, escuto minha médica falar pra assistente: -Olha que músculo lindo que ela tem! Ela malhava muito, Felipe?
Não vou nem citar os palavrões que passaram na minha cabeça....
O anestesista sobe em cima de mim e de repente eu escuto um choro muito alto, berro melhor dizendo! O anestesista levanta minha cabeça e a médica levanta o maior amor da minha vida.... Lá estava ela, toda esticada, bracinhos e perninhas bem esticadas, berrando, cabeluda, toda gosmentinha, coberta de vérnix. O pediatra a enrolou e a encostou no meu rosto, eu só chorava e comecei a beijá-la e dizer: -Oi meu amor, é a mamãe, é a mamãe, acho q ela me reconheceu, pq foi diminuindo o choro e começou a morder meu queixo...
Eu perguntei se tava tudo bem com ela e ele a desenrolou, me mostrou e disse que sim, que tava tudo bem. Eu tentava abraçá-la, mas meu braço tava preso no soro e pelo anestesista também.
Eram duas horas da manhã.
A levaram e eu já fiquei com saudades, eu queria que o Felipe tivesse ido junto com ela, mas ele tava lá embasbacado com a médica me remendando... depois ele me contou que parecia uma máquina de solda, ela encostava o instrumento no corte e saia uma fumacinha....
Me levaram pro quarto e quando me puseram na maca, vi a quantidade de sangue que havia na mesa de operação...
Fui pro quarto e o anestesista veio me ver e me disse que eu poderia ter novamente aquela tremedeira, que já ia deixar prescrito o remédio pra aplicarem e não deu outra, tive a tremedeira novamente só que menos forte.
Entra minha mãe e meu irmão no quarto e dizem que a minha filha é linda e que tá berrando no berçário. Me deu uma pena enorme e eu tava meio zonza, meio fora da realidade... Sinceramente não me lembro se ela veio logo pro quarto, nem o Felipe lembra, eu acho que sim, pq me lembro que quando eu dormi ela já estava no quarto comigo.
Hoje em dia me corta o coração pensar que ela ficou lá chorando... Mas acho que na hora eu devo ter pensado que ela estava sendo bem tratada... Só me lembro que quando a trouxeram eu não conseguia tirar os olhos dela, olhando aquela coisinha cabeluda, com os olhinhos abertos, eu pensava: -Meus Deus, o que é eue eu vou fazer com ela agora? E ficamos eu e Felipe embasbacados admirando a cria...
Mais ou menos seis horas depois da cirurgia, vieram me trocar de quarto, havia vagado um quarto no andar da maternidade. Duas enfermeiras horríveis resolveram me botar de pé, DOÍA horrores e uma delas teve a brilhante idéia de aproveitar pra trocar a fralda q eu usava, até aí tudo bem, se ela não tivesse dado um puxão na fralda assim q eu levantei, fazendo com q a sonda q eu estava saísse do lugar, me machucando por dentro, parecia q tinha uma faca dentro de mim!
Me sentaram numa cadeira de rodas, me levaram pro elevador que por sinal na porta tinha um ressalto e que doeu muito quando passei por ele. Quando chegamos próximo à porta do meu novo quarto, o rapaz q estava empurrando a cadeira foi chamado por uma outra enfermeira e ele me estacionou por um instante. Minha sogra, para meu bel prazer, saiu empurrando a cadeira feito uma louca e lógico, ERROU a porta de mais de um metro de largura e ME ACERTOU COM TODA FORÇA CONTRA A PAREDE.
Nem preciso narrar a dor que senti nem as palavras doces que saíram de minha linda boquinha................
Bem, Ila passou fome três dias até meu leite descer mesmo, na maternidade de madrugada, a enfermeira veio com uma mamadeirinha de Nan e disse que o pediatra tinha autorizado dar pra que eu pudesse descansar um pouco e que ele só fazia isso quando via q a mãe estava se esforçando pra dar de mamar. A paquiderme que vos narra ainda ficou orgulhosa de ouvir isso.... Ila devorou aquele leitinho, devia ter um dedo de leite, era beeeeeem pouco e dormiu NOVE HORAS SEGUIDAS!!!!!!!!! Que Nan q nada, devia ter lexotan naquela mamadeira!!!!!
Eu e o Felipe ficamos apavorados e só conseguimos respirar de novo quando ela finalmente acordou.
O pós-operatório foi terrível, dores, minha barriga saiu do hospital maior do que quando eu tinha entrado, não conseguia cuidar da Ila direito, tinha que me arrastar pra fora da cama, pq não tinha força nenhuma no abdômen.
Bem, foi isso, fiquei meses pensando: -O q q eu fiz de errado? Sserá q foi o tal tapete?
Quando fui nas consultas posteriores de rotina, perguntei pra médica se poderia num próximo filho ter um parto normal e ela me disse que era difícil pq poderia ter quelóide, ruptura, etc.
E meu sonho de ter muitos filhos foi por água abaixo... Outra cesárea? Nem pensar. Tudo bem, eu adotaria.
Até que descobri as listas, a Ingrid e todas as mulheres maravilhosas que me ajudaram a ver a verdade, a dura verdade....
Que por puro comodismo, uma mulher, uma médica, friamente e futilmente nega o direito de uma outra mulher de parir seu filho de uma forma natural, de uma forma sonhada, de uma forma desejada. Ela cortou um processo que estava caminhando normalmente e me fez pensar (e me culpar) que tinha algo errado quando tudo estava dentro da normalidade....
Ainda dói, dói muito, eu e minha filha fomos castradas do nosso direito. Eu de parir dignamente e ela de nascer de uma forma mais doce, muito mais bonita, humanizada, naturalmente.
Amo minha filha mais q tudo e eu sei q ela me ama tb, não posso afirmar que nossas vidas seriam diferentes se tivesse sido um parto normal, mas com certeza a cesárea ajudou e muito pra minha depressão.... E com certeza isso afeta minha filha.
Patrícia Merlin
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Relato nº 4
30 de abril de 2003, uma quarta feira muito bonita de primavera, em Portland, OR, EUA.
Eu e Ole bem ansiosos, afinal de contas a data prevista para chegada do Lucas já tinha passado vários dias!
Fomos para a última consulta de rotina com o GO, Dr. Ono e ele viu que apesar de alguns centímetros de dilatação, não havia nem sinal de trabalho de parto vindo. Nos explicou que estava tudo bem apesar das quase 41 semanas de gravidez e podíamos esperar mais, porém ele estava saindo de férias na semana próxima, então nos ofereceu a opção de induzir o parto daqui a 3 dias, um sábado.
Nossa, que decisão difícil de tomar!
Por um lado parecia que seria um alívio que o Lucas viesse e na presença do Dr. Ono que sempre foi muito atencioso em todas as consultas, muito falante, explicava tudo e sempre disposto a discussões (eu com minhas listas enormes de dúvidas). Um médico que certamente encoraja o parto normal e queria muito que isso acontecesse (nos EUA médicos cesaristas não são a norma).
Bem, depois de pensar um pouco decidimos aceitar a indução, pois assim ele nos acompanharia, ao passo de que se esperassemos mais uma semana teriamos a chance do Lucas nascer com um medico desconhecido nosso. O fator psicológico conta demais nesse momento tão importante de nossas vidas, onde não tínhamos nenhum amigo ou parente por perto e tinhamos no Dr. Ono uma pessoa amiga e que aprendemos a confiar ao longo desses 9 meses. Bom, decidimos e marcamos a indução para o sábado, que seria dia 3 de maio de 2003.
Depois da consulta fomos almoçar, eu um tanto confusa quanto a essa decisão. Pensamos juntos e ficamos tranquilos, pois poderiamos cancelar a indução a qualquer momento. E fomos para casa descansar, eu com um barrigão enorme e bem pesado!
De noite após o jantar as contrações vieram, bem fracas no inicio, ainda achei que eram somente Braxton, mas elas persistiram! Ah, parece que o Lucas tinha adivinhado que marcamos a indução, mas quis vir quando ELE decidiu, menino esperto hein? No fim fiquei muito feliz porque veio na hora certa e indução não foi necessaria.
As contrações não estava muito fortes e doidas, mas por volta das 10 da noite começaram ficar muito constantes. Ligamos para o consultorio obstetrico e a medica de plantão nos disse para ir ao hospital. Ah, que emocão, uma hora tão esperada, estava para acontecer finalmente!
Tomei um banho rápido, pegamos nossa malinha já toda arrumada e rumo ao hospital que já tinhamos visitado inclusive.
Chegando lá fizeram a prova do toque e viram que não tinha dilatado muito mais do que já estava, ou seja, 3 cm. E e como eu não parecia estar com muita dor, queriam me mandar de volta para casa. Mas para garantir pediram que eu ficasse numa sala de triagem para monitorar o progresso das coisas por algum tempo antes de nos mandarem de volta. E foi lá nessa sala que o trabalho de parto comecou com força total! Primeiro veio uma diarréia muito chata e constante, junto com as contrações, não foi nada agradavel. E a dor comecou a aumentar muito e mais um pouco e mais. Comecei a precisar de ajuda do Ole para suportar, então ele me abraçava e tentava fazer massagem em minhas costas e seguir algumas dicas que tinhamos praticado do livro Lamaze (Preparation for Birth : The Complete Guide to the Lamaze Method by Beverly Savage, Diana Simkin).
Por volta de 1 da manhã outro medico veio verificar o progresso quando decidiram que eu poderia ser admitida mesmo no hospital. Ufa! Assim fomos para a sala que seria nossa e coloquei aquela roupinha linda de hospital.
A partir daí me lembro de ter perdido totalmente noção do tempo e já me sentia muito cansada, afinal o trabalho de parto começou bem na hora que eu iria para cama dormir.
E eu andando para lá para cá, tentando achar uma posição para quando as contrações viessem, quando nos tocamos que esquecemos em casa a bola suiça que compramos para ver se ajudava nisso. Optamos por não ter uma doula, apesar de reconhecer sua finalidade muito nobre e útil, mas como não tinhamos amigos aqui para mim seria como uma estranha a mais no meio daquele emaranhado de emoções e sabia que podia contar com o Ole para me doular. Aliás, ele foi maravilhoso em tudo!
Me ligaram nos monitores, fetais e de contrações, mas eu não queria ficar parada naquela cama, pois andar e ficar de cócoras aliviava um pouco da dor e fazendo as respirações do Lamaze, que na hora esqueci tudo e somente o Ole para me lembrar e me ensinar novamente.
Quando chegou na fase de uma contração a cada cinco minutos (isso já estava quase amanhecendo), não conseguia mais suportar. Como tinha escrito no meu plano de parto que poderia me oferecer uma epidural, a anestesista veio oferecer.
Eu tinha sentimentos muito confusos quanto a analgesia, por um lado queria resistir a qualquer custo, mas por outro reconhecia que o ser humano tem limitações e senti que estava no meu limite, doendo demais mesmo. Nessa hora eu já devia estar com quase 8 centímetros e me lembrei de uma última discussão com Dr. Ono, onde eu perguntei sobre a epidural. O medo que eu tinha que a epidural poderia retardar o trabalho de parto tinha mais probabilidade de acontecer se administrada no comecinho, com poucos centrimetros de dilatacão, mas já assim na quase reta final, era menos provável.
Ainda relutei bastante quando a anestesista, veio, tentei perguntar, argumentar, ela deve ter me achado uma gringa louca..risos..
Bom, a enfermeira me perguntou como estava minha dor numa escala de 0-10 e minha resposta foi 9! Realmente não conseguiria aguentar muito mais, então fomos em frente.
Foi dificil para a anestesista aplicar, pois as contrações estavam intensas e eu tinha que ficar paradinha, quieta! Assim entre uma contração e outra me esforcei para não me mexer e na segunda tentativa deu certo. Foi um alívio imenso, que não sei nem descrever!
Foi então que deitei um pouco e relaxei, mas como a essas alturas já estava com o monitor de batidas do coração do Lucas e de contraçoes o tempo todo (antes o monitoramento era intermitente porque insisti, bem que quiseram que fosse constante) e pude observar na telinha cada contração que vinha, mas sem dor! Incrível!
Ole deitou um pouquinho também nessa hora e ambos relaxamos enquanto a natureza fazia seu trabalho, preparando para o Lucas chegar, mas não dormi, somente descansei um pouco.
Por volta da hora do almoço, Ole foi pegar alguma coisa para comer na cantina do hospital. Assim que ele saiu algo estranho aconteceu, pois as batidas do coração do Lucas começaram a diminuir rapidamente e chamaram uma médica de emergência que me colocou de cócoras (coisa que foi bem difícil por causa da epidural) e me assustou muito dizendo que podia fazer uma cesárea as pressas para salvar o bebê!! Ai, meu Deus!!
Bom, foi eu ficar de cócoras as batidas retornaram ao normal, o Lucas tinha que dar uma mexidinha lá, tadinho, estava desconfortável e chamaram o Ole pelo interfone do hospital, chegou correndo, nem comeu nada!
Depois desse susto, tudo voltou ao normal e o Ole finalmente conseguiu comer algo.
Dr. Ono já estava a caminho. Outro obstetra que eu já conhecia da clínica também veio e decidiu romper a bolsa d'água artificialmente já que tudo indicava que estava próximo. A essas alturas nem ligava mais para quem entrava, saia, mexia, já tinha passado há muito tempo a fase do pudor.
Pouco antes do meio dia Dr. Ono chegou e nem deu tempo de muita coisa quando ele verificou que era hora de empurrar: 10 centímetros! Incrivel!
Ele me orientou a empurrar cada vez que ele pedisse, conforme a contração vinha. Coloquei todas minhas forças naquele trabalho, o mais importante que jamais tinha realizado em minha vida, o expulsivo.
A cada contração que vinha ele pedia: Push! Eu não consegui empurrar todas as vezes, mas tudo bem, na próxima tentava com forca total, com uma barra de ferro e o Ole servindo de apoio. E ganhei também uma episiotomia nessa hora, meio a contra-gosto, ainda tentei argumentar se não era possivel evitar, mas ele foi enfático que ajudaria e parece ter ajudado mesmo.
Ele colocou um espelho para que eu pudesse ver a cabecinha coroando! As palavras dele: não é loiro! Ahahah, vê se pode? Quem diria que aos 6 meses de idade seu cabelinho, até então escuro, iria se tornar dourado?
Exatamente as 12:27 h Lucas nasceu! Meia hora de empurrões, Dr. Ono ficou impressionado por ser primeiro filho! Foram cerca de 14 horas de trabalho de parto.
Na hora do nascimento as luzes foram diminuidas e assim que o Lucas nasceu. Dr. Ono aspirou as secreções gástricas, limpou um pouquinho (já não tinha quase vernix por causa do pós-datismo) e veio imediatamente para cima da minha barriga, esse momento é inesquecível!
Ele estava tão alerta! Olhava para cima, para os lados e principalmente para meus olhos. Eu e Ole admirando aquela criaturinha tão perfeita que Deus nos deu! Dr. Ono ofereceu para que o Ole cortasse o cordão e ele meio relutante o fez, porque afinal é trabalho do pai, disse Dr. Ono!
Enquanto admirávamos o Lucas a placenta saiu e recebi os pontos na episiotomia. Já ofereci meu peito e ele mamou um pouquinho no peito esquerdo, aí foram medi-lo, limpá-lo e os outros procedimentos padrão, porém tudo na minha frente.
Fomos transferidos para outro quarto e já estava me sentindo ótima! Para desespero da enfermeira levantei e fui ao banheiro sem pedir autorização. Estava com muita fome, afinal não tinha comido nada desde a noite passada, mas quando fui comer vomitei tudo (um pouco em cima do Lucas, tadinho!!) porque ainda tinha o resto do efeito da anestesia.
Ficamos a tarde toda curtindo nosso bebê e tentando amamentar. Tenho muito a agradecer as conselheiras da La Leche League que deram uma ajuda essencial nesse dia e no dia seguinte, para que eu conseguisse amamentar com sucesso. Tivemos muitos obstáculos por causa de uma mamoplastia realizada ha um tempo atras, mas gracas a Deus tudo foi superado.
No final da tarde o Ole pediu para ir para casa porque ele estava exausto e eu cheia de energia! Rsss...esses homens, né?
1o. de maio de 2003, 12:27 h: Lucas nasceu!
Foi o sentimento mais profundo, mais bonito do mundo, meu pequeno bebê em meus braços!!
Ele se parece com o Ole, mas tem os cabelos como os meus. É lindo!! Esqueci das muitas horas de trabalho de parto imediatamente! Dei de mamar rapidinho, entao fomos para o quarto de recuperação.
O Ole está exausto, falei para ele ir pra casa dormir, pois veio uma energia inesperada em mim, só queria cuidar do Lucas. Ele chorou bastante, pedi para enfermeira ficar com ele um pouquinho durante a noite, ele é um bom menino.
No dia seguinte fiquei chorosa e emocionada, principalmente depois de conversar com Dr. Ono e cair em si que agora somos nós, o bebê e Deus para nos ajudar.
Fomos para casa, fui chorando no caminho, tanta incerteza, insegurança, um bebê tão novinho, nós sózinhos, mas Ole como sempre tão bom, palavras encorajadoras, ele é um presente de Deus e eu o amo muito. Nós vamos cuidar e do Luquinha e amá-lo muito, juntos!
E assim começam
As aventuras do Lucas Mortensen.
Patrícia Merlin
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