14/04/06
Voltando ao trabalho...

Antes de eu sair de casa, Caco pediu que eu não demorasse, pois tinha um serviço pra terminar e precisava que eu ficasse com Pedro. Prometi voltar cedo....

Chegando lá, M. e A. no TP., mas M. numa boa e A., com soro, em TP avançado. Primeiro bebê, estava com a mãe, deitada de barriga pra cima, se contorcendo. A primeira coisa que eu fiz foi ligar o ventilador (vê se pode uma coisa dessa...), depois cheguei nela e convidei-a para um banho. Ela foi e aproveitou bem.

Depois não deitou mais, ficou de pé rebolando comigo, agachando, permanecendo de cócoras e prestando atenção nas contrações. Ela chegou a 10 rapidinho, mas o bebê demorou bastante pra descer. Quando faltava pouco pra descer, ela preferiu ficar ajoelhada na cama, escorando em mim durante as contrações. Nos intervalos, ela olhava pra mim, com aquele olhar distante e às vezes dizia que não ia conseguir, que queria desistir.

A mãe ficou ali do lado, agradecendo e incentivando, trazendo água e fazendo perguntas pra mim nos intervalos das contrações.
Quando decidiram que já era hora de ir para o CC, o cabelinho da T. já aparecia através da vulva.

Eu pedi (e o GO aceitou) para levar uma almofada triangular pro CC, pra colocar na mesa e assim elevar o tronco das parturientes durante o expulsivo. Além de facilitar a vida delas na hora de fazer força, ainda possibilita que elas tenham maior visibilidade quando o neném sai. Eu me coloquei atrás da almofada e fiquei ali, incentivando.

O enfermeiro que estava no CC nunca tinha me visto (é sempre uma senhora, que hoje não estava) e ele perguntou: quem é essa pessoa na cabeceira da mesa? O residente disse: é a doula. E ficou por isso mesmo. Imagino que o enfermeiro nem desconfie o que seja isso...
O expulsivo foi rápido, ela não teve epsiotomia, mas levou um pontinho. O bebê nasceu bem e ficou cerca de 10 minutos no colo dela até a pediatra levar pro berçário.

Voltando para o quarto, continuava a M. sem sentir dores... Era o terceiro filho dela, os dois primeiros nasceram de PN. Todos estranhavam o fato de o TP dela não engrenar. Ela estava com soro, já era a segunda bomba e nada. O residente decidiu estourar a bolsa dela e aí o TP engrenou.
Ela passou o TP todo na cama, sentada, perna de borboleta, balançando pra frente na contração. A evolução foi rápida depois disso. O expulsivo foi demorado e o bebê nasceu com Síndrome de Down. Aparentemente, ela não sabia...

Os dois bebês nasceram antes das 21h e um pouco depois, uma nova mulher foi admitida. Eu cheguei a ligar pro Caco pra saber se eu precisava mesmo voltar, por que se eu começasse a acompanha-la, teria que ficar até o final. E isso poderia durar umas longas horas....

Primípara, solteira e com 32 anos, a AP. me pareceu estar totalmente desconfortável no papel que exercia naquele momento. Ela se segurava toda durante as contrações, parecia que trabalhava contra o próprio corpo. Ela me surpreendeu muito, por que o comportamento dela é observado em TPs longos e sofridos, onde a mulher não faz muita coisa pra ajudar no processo. Mas o dela foi muito rápido. Em menos de 2 horas ela tinha dilatação total e o expulsivo foi super rápido também.
Depois, quando ela já estava de volta pro quarto, fui conversar com ela, falar da experiência e de coisas que nem deu tempo antes e ela ficou surpresa de saber que o TP dela foi rápido.

Curiosidade:
Todas as pessoas da equipe do hospital que entraram na sala de TP, me cumprimentaram, me chamando pelo nome.

Patrícia Merlin
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31/03/06
Só conversa...

Hoje a maternidade estava vazia, sem TPs e com poucas recém paridas.
Conversei com algumas sobre amamentação, mas a conversa que valeu mesmo foi com o GO e com o residente (separados).
Acho que estamos num bom caminho, mesmo que ele esteja com receios de mudar....


Patrícia Merlin
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31/03/06
A primeira cesárea.


Eu já tinha recebido o convite para acompanhar a cesárea de outras mulheres no voluntariado. No plantão que eu vou, raramente um TP termina em cesárea. As cesáreas são raras e acontecem por fatores que determinam a necessidade antes do TP. Na verdade, elas chegam em início de trabalho de parto, mas já sabendo que vão fazer a cirurgia. Então não é comum que eu conheça a mulher, que tenha criado algum vínculo com ela.

A primeira cesárea que eu acompanhei, foi de uma adolescente, a B.
Eu ia resistir, mas ela chorou tanto quando recebeu a notícia da indicação, ela gritava que não queria e olhava pra mim como se eu pudesse fazer alguma coisa. Eu cheguei perto, segurei a mão dela e expliquei o que ia acontecer, que ela não precisava ter medo e ela me pediu pra entrar no Centro Cirúrgico com ela. Eu fui...

A minha limitação neste caso, tinha a ver com a minha própria história. Eu não fiz o escândalo que ela fez, mas chorei igual, por motivos diferentes. Eu sabia que ela precisava de mim naquele momento, mas foi muito difícil decidir, muito mesmo.
Naquela noite, tinha 4 mulheres em TP e chegou mais uma depois que eu entrei pro centro cirúrgico. Depois que ela foi levada para o CC, eu ainda acompanhei um PN na sala do lado.

Quando eu pude finalmente ficar com ela, o anestesista ainda estava preparando-a e como eu não o conheço, fiquei do lado de fora, espiando. Ela me olhava chorando e sussurrava: entra, por favor...
Fiquei ali, olhando os procedimentos e me vendo naquela situação....Confesso que chorei também, um choro guardado a tempos e do qual eu nem mais lembrava.
Quando o anestesista terminou, o GO já estava entrando na sala e me chamour. Tomei fôlego e fui!

Eu já ouvi muita gente perguntar por que eu faço esse trabalho, ou se eu acho que a minha cesárea atrapalha o meu atendimento e até uns absurdos do tipo 'você quer é que elas se dêem tão mal quanto você', 'seu interesse pelo processo é mórbido, parece que quer reviver a sua história infeliz, no PN dos outros'. É, tem quem fale este tipo de coisa.

Eu fiz o curso de doula antes de engravidar, então eu já queria fazer isso, antes mesmo de ter meu filho. Mas é claro que a minha experiência influencia meu trabalho. Acho que depois da minha cesárea, ficou ainda mais claro pra mim que as mulheres precisam saber como as coisas são, que elas podem e devem ter o controle sobre a própria gestação e sobre o próprio corpo.
Já se vão mais de 3 anos neste trabalho de conscientização, seja via internet, seja com as pessoas que eu conheço ou com quem eu tenho o privilégio de trocar algumas palavras, mesmo sem ter intimidade nenhuma. Eu não sou fanática pelo PN e sei bem a hora certa de me calar, por isso quando eu vejo que numa roda de mulheres não tem espaço para essa idéias, eu fico na minha. Lamento muito, mas fico na minha.

Enfim, acompanhar a cesárea da B., marcou um novo ponto de partida pra mim e curiosamente muitas coisas boas aconteceram desde então...

Patrícia Merlin
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O que significa "doula"?

A palavra "doula" vem do grego e significa "mulher que serve". Nos dias de hoje, aplica-se às mulheres que dão suporte físico e emocional à outras mulheres durante a gestação, no trabalho de parto e parto e na amamentação.



Como é o trabalho da doula?
Durante a gestação a doula orienta o casal sobre o que esperar do parto e pós-parto. Explica os procedimentos comuns e ajuda a mulher a se preparar, física e emocionalmente para o parto, das mais variadas formas. Durante o parto a doula funciona como uma interface entre a equipe de atendimento e o casal. Ela explica os complicados termos médicos e os procedimentos hospitalares e atenua a eventual frieza da equipe de atendimento num dos momentos mais vulneráveis de sua vida. Ela ajuda a parturiente a encontrar posições mais confortáveis para o trabalho de parto e parto, mostra formas eficientes de respiração e propõe medidas naturais que podem aliviar as dores, como banhos, massagens, relaxamento, etc.. Após o parto ela faz visitas à nova família, oferecendo apoio especialmente em relação à amamentação e cuidados com o bebê.

Vantagens
As pesquisas têm mostrado que a atuação da doula no parto pode:
diminuir em 50% as taxas de cesárea
diminuir em 20% a duração do trabalho de parto
diminuir em 60% os pedidos de anestesia
diminuir em 40% o uso da oxitocina
diminuir em 40% o uso de fórceps.

Embora esses números refiram-se a pesquisas no exterior, é muito provável que os números aqui sejam tão favoráveis quanto os acima mostrados.

Saiba Mais:
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